Na minha mala, quase de cartão, viajaram comigo uma mão cheia de "masters" de playbacks instrumentais, ( artista pobre não tem direito a musicos ao vivo !) outra mão cheia de "slides" fotográficos de nomes sonantes da nossa terra, Amália, Zeca Afonso, Ary, David Mourão-Ferreira,Manuel Alegre, Salgueiro Maia, etc, e uma grande fotografia da manhã de Abril, mostrando os soldados "valerosos" ,empunhando as suas espingardas, com cravos vermelhos em riste. Uma imagem que por si só, descreve o nosso Abril, sem necessitar de grandes prosas.
A viagem, essa, era-me já muito familiar. Caracas estava igual a si mesma. Flamejante, descoordenada, apaixonada, plena de vida. Agora, muito mais em polvorosa, devido ao momento político que atravessa. O meu concerto, numa Universidade privada, seria uma forma ,e a minha oportunidade, de falar e cantar o Abril Português...A Revolução. A sala estava repleta de estudantes da área do Direito, das Literaturas, da História, das Filosofias e Sociologias. Gente jovem, na maioria habitantes da cidade de Caracas, mas também muitos colombianos, radicados na Venezuela. Alguns luso-descendentes ( muito poucos), também. Na véspera ,eu havia "conferenciado" com o unico técnico de som/ iluminação/ multimédia , que me era destinado. Havia combinado com ele, a projecção dos slides, à medida que o espectáculo ia avançando. O alinhamento estava feito, e agora, era só desejar-me a mim própria ,"muita merda",e avante ! Para tentar fazer uma certa pedagogia, começo o recital com um poema de Manuel Alegre. Falei que havia sido escrito no tempo da ditadura. "Pergunto, ao vento que passa/ Notícias do meu país / O vento cala a desgraça / O vento, nada me diz...No grande écran uma imagem de Manuel Alegre. Outros trechos se lhe seguiram, sempre com a mesma linha de apresentação. No palco, e no écran, desfilaram poemas e musicas do Portugal Liberto. A ante-penultima canção, falava de Salgueiro Maia. A sua imagem surgiu à plateia, a preto e branco, aquele homem lindo, corajoso, que encarna na perfeição, o nosso Abril . Umas breves palavras, antecederam a interpretação do Fado Salgueiro Maia, de minha autoria. Lembrei-me do filme de Maria de Medeiros, e falei-lhes dele. Um forte aplauso encheu a sala. Eram palmas, não para mim, mas para o capitão de Abril. O penultimo trecho, como não podia deixar de ser, foi para Amália. No grande écran desfilaram algumas fotografias da Diva de Portugal. Pelos aplausos imediatos, verificava-se que a maior parte dos presentes ,sabia de quem se tratava. Viria a ter de cantar um "encore" no final, a pedido do publico. O Fado "Coimbra", popularizado pela cantora. Agradeci a Deus, o facto de ter levado comigo o playback instrumental do tema. E agradeci também ao técnico, o facto de não se ter enganado no CD. Felizmente. Detesto esse tipo de "barracas". A ultima canção do alinhamento, foi porém, o ponto mais emocionante da tarde. Foi colocada no plasma, uma foto de Zeca Afonso,e mesmo ao lado, a transcrição em português de Grândola Vila Morena. Pedi-lhes para cantar. E tive mesmo de, por momentos, parar de cantar, só para ouvir a "Grândola", entoada por cerca de quinhentos estudantes sul-americanos, que de Portugal, sabiam bem pouco. Borrei o raio do rimel. "Bolas, p`ra que fui eu `mascarar-me`?", pensava eu, ao terminar o refrão do hino de Abril. No final, muita gente quiz falar comigo, queriam saber ainda mais sobre aquele Abril tão lindo. Um colombiano, a quem a guerra entre as FARC e o Estado, havia-lhe roubado um irmão, apertou-me a mão, e disse-me esta frase, que por si só, valeu a minha viagem ao continente sul-americano. "Que bonito fue la revolucion de su pais. Sin plantos de sangre. A nosotros, nos falta esa humanidad !"
E lá vim eu, toda orgulhosa, toda feliz, por ter no meu passaporte, a palavra Portugal. O Portugal de Abril. O Portugal de Salgueiro Maia. O Portugal da Liberdade. Por isso, a luta continua.Para que não desmereçamos a coragem dos herois de Abril. Para que Abril se cumpra ...
WELCOME BACK :)
Afixado por: golfinho em maio 1, 2004 12:43 PMAmália foi sua terapeuta, Valéria é a minha nas suas crónicas REAIS q escreve. Isto diz tudo:
"O Fado "Coimbra", popularizado pela cantora. Agradeci a Deus, o facto de ter levado comigo o playback instrumental do tema. E agradeci também ao técnico, o facto de não se ter enganado no CD. Felizmente. Detesto esse tipo de "barracas"."
Um beijo
Afixado por: golfinho em maio 1, 2004 12:48 PMSeja bem-vinda ao nosso convívio ao que parece a digressão correu bem e ainda bem chegou a tempo de comemorar o 1º. de Maio. Um abraço do Raúl.
Afixado por: congeminações em maio 1, 2004 07:40 PMParabéns Grande Valéria, dúvido que haja mais gente que divulgue o nosso Abril, como o descreveu aqui, dessa maneira estrondosa e original. Dava tudo para ter lá estado.
Já sabe, contamos consigo!
Afixado por: O Prusidente da Junta em maio 3, 2004 05:30 AM