Cenário - Ilha de LAMPEDUSA, de administração italiana. A Ilha mais ao sul de Itália, que inclui ainda ,outra ilha do arquipélago "delle Pelagie", Linosa , com apenas 11 Km de perímetro. Existe ainda uma outra, Lampione, porém desabitada, com menos de 2 km de perímetro. Lampedusa, é a ilha principal, com um perímetro de 26 Km, e é habitada desde os tempos imemoriais dos Gregos e dos Sarracenos.Existem monumentos que o prova. Um paraíso, a só 167 Km da costa da Tunísia,e a cerca de 200 km das ilhas de Sicilia e de Malta.
A Época, era a dos meus dezoito anos. Nessa altura, encontrava-me na cidade de Perugia,a estudar. Numas pequenas férias escolares, em que vir a Portugal ( Madeira), não fazia parte dos meus planos, juntei-me a um grupo de colegas,e lá fomos até Sicilia,e de lá, aventuramo-nos numa fabulosa viagem de barco, até Lampedusa. Não que a ilha, não possuisse um pequeno aeroporto, que só não me metia medo a mim, por ser muito parecido com o que tinhamos na Madeira, na altura. Foram quatro dias de sonho, com um sol, onde nunca vi outro igual, praias puras e brancas, desertas... Ficamos todos, numa pequena casa típica,com duas assoalhadas, mesmo
à beirinha da praia...Eram esses os unicos alojamentos possíveis, em Lampedusa. Não havia nenhum Hotel. Só essas casas recuperadas, que alguém rentabilizava, alugando-as aos turistas. Comiamos num restaurante "de morrer", em que o proprio dono ,cozinhava o peixe, ali mesmo à nossa frente, enquanto um rapaz da ilha, cantava doces baladas ao som da sua velhinha guitarra. " Oh Marinella, ti sei sposate`il mio cuore batte...". O convivio entre os turistas (os que sabiam falar italiano) e os locais, era sempre o prato forte. Aqui, o turista, não era turista, era mais um amigo de longe. E foram tão agradáveis, as nossas conversas com os pescadores, com o dono da farmácia (unica) local, com o professor primário (também unico) da Ilha,e com uma velha senhora "Fiorentina", de mais de oitenta anos, que havia decidido "vir morrer a Lampedusa". Uma mulher, que apesar da idade, ainda nos acompanhou, numa noite de tertúlia ,até às três da madrugada, por entre um copo de vinho, e uns "frutti del mare", fresquíssimos. Eu ,que nem sou apreciadora de mariscos, tive de render-me à mágica do seu sabor.Lá para as duas da manhã, ainda iamos à praia dar um mergulho nas águas cálidas,e depois dormiamos, até termos o sol, de novo, a gritar-nos um convite irrecusável. Uma noite, seriam porventura já, cerca das cinco da madrugada, todos dormiam profundamente. Até a minha amiga e colega ,Tijen ( a tal Turca ,que casara mais tarde com o filho da Condessa de Catalnissetta, de que falo noutra crónica...), que decidira nessa noite, beber quase uma garrafa de vinho,e presentear-nos com as baladas do seu país, sucumbira ao sono, embalada pela "musica do mar". Eu, ao contrário, não conseguia dormir. A magia da noite, o luar, o branco da praia ,a côr da noite,envolveram-me de tal modo, que subitamente, vi-me à beira-praia, cantando um velho fado de Amália, que nessa altura, já fazia parte do meu imaginário. O cenário, não poderia ser o melhor, para o "Fado Português", de José Regio. "O Fado, nasceu um dia/ Quando o vento mal bolia/ E o céu, o mar prolongavam/ Na amurada dum veleiro/ No peito dum marinheiro/ Que estando triste, cantava..." De repente, senti ao meu lado,a presença de alguém. Era um velho pescador. Já o conheciamos todos, o "Tonino". Parei de cantar. A luz do luar, iluminou-lhe o rosto,e vi que uma lágrima teimosa, assomava ao canto dos seus olhos. Peguei na sua mão,e perguntei-lhe- "Ma, perchè piangi ?". Porque choras? Fazendo um gesto largo com a mão, o ancião retorquiu-me -" La Tua Musica, è come il Mare !". Apertei sua mão, num misto de comunhão e de magia.Poderei dizer que, naquele momento, o velho pescador de Lampedusa, e eu, eramos a personificação do Amor. Aquele mais puro. Aquele irreal... Até hoje, ainda não encontrei melhor forma de definir o Fado. Até hoje, ainda não encontrei um Amor assim...
CONHEÇAM ESTE PARAÍSO NA TERRA: LAMPEDUSA
Valéria, escreves de uma maneira tão sentida que nos levas contigo... neste caso até Lampedusa, à praia, à areia, ao dono do restaurante a grelhar o peixe, o rapaz a cantar “Oh, Marinela...”, à magia da noite mediterrânica, ao velho e..., como sempre, ao Fado e a Amália.
Afixado por: vmar em abril 15, 2004 10:44 PMgrata pela visita e por me dar a conhecer o seu blog. voltarei para leitura mais aprofundada. um abraço. dia bom.
Afixado por: mariamar em abril 16, 2004 06:09 AMBolas, eu sinseramente não li o post todo. É tão grande que não consigo foccar a minha atenção por muito tempo. A pessoas assim, e eu sou uma delas. Por isso até hoje li pouquissimos livros.. excepto os de tecnologicos da licenciatura, e tb são em Inglês que torna tudo bué de marado. Já cá tinha passado outro dia... e aconteceu a mesma coisa, por isso agora tinha de deixar um comentario, a bem ou mal.
Sim, ilhas, apesar de seres de um sitio "limitado" por mar, andas a saltar garndes distância. Eu ando a convencer colegas meus a alugar uma carrinha e fazer uma patrulaznha durnte 2 ou 3 semanas na peninsula da escandinavia. Ir falar com o paí natal, etc, etc...bye
Vi no suplemento Y do público (suplemento sobre música) de hoje um artigo que me fez lembrar logo de ti. É uma compilação de 24 interpretações da canção Coimbra por 24 artistas diferentes. Curiosamente quem editou este Cd foi José Moças que por acaso eu até conheço e num futuro próximo falarei sobre ele no meu blog. A sua editora é injustamente desconhecida mas o seu trabalho é único. Vale a pena ver o que este menino anda a fazer pela música portuguesa (WWW. tradisom.com)
Afixado por: amnésia em abril 16, 2004 06:49 PMO relato é suficientemente convincente para que num plano de férias se inclua esta ilha como um possível destino de férias. Grato pela sugestão.
Afixado por: congeminações em abril 16, 2004 07:32 PMwell, here i am the irish in america, oops, um roaz perdido :)
1 dia perco-me e vou ctg ;-)
1 beijo.
Afixado por: GolfinhU2 em abril 17, 2004 11:26 AMConsigo visualizar o restaurante, ouvir a música, ouvir o mar...
Abraço, WB