Chegara à minha vez. Depois duma apresentação, cheia de inexactidões, lá entro eu com "Ai Palestina", um Fado com letra minha. No final, os aplausos foram moderados. Expliquei, em Castelhano, que se tratava duma homenagem ao povo palestiniano. Notei que conheciam o problema, mas muito vagamente. Já quando se iniciaram os acordes de "Coimbra" (April In Portugal), notei uma maior atenção e interesse. Até consegui que trauteassem o refrão. As luzes diminuiram ,e foi interessante ,ver peruanos a se bambolearem lentamente ao som do Fado. Os aplausos foram mais significativos. Expliquei-lhes que se tratava dum tema, que se tornou num "hit" internacional da maior voz portuguesa do século XX - Amália Rodrigues. Finalizei com uma canção da Venezuela,da autoria do autor-compositor Simon Diaz, "Caballo Viejo". Aí sim, confesso que as coisas animaram. Muitos cantavam comigo a canção, que se tornou numa espécie de "Povo que lavas no rio", venezuelano, interpretado por muitos artistas. Depois dum aplauso mais prolongado, Raul Romeno, levou-me até um sofá,onde "conversámos" um pouco. Comecei por delicadamente corrigir o que ele tinha dito na apresentação. Que eu não vivia na Venezuela, e que Portugal, era o meu país de origem,e não Espanha. Ele ainda insistiu- " Però usted ha dicho que era portuguesa." Retorqui, delicadamente -" Si, por supuesto. Soy Portuguesa, de Portugal. No tiene nada que ver con España. Tenemos nuestro idioma,nuestra cultura ,nuestro gobierno", ao que prontamente, o galã rematou-" Ah si, claro. Estaba pensando en una region autonoma de España." Sorri. Achei que era melhor não continuar por aí. Falámos da grande comunidade de Portugueses na Venezuela, da minha causa, a Palestina, e de Amália Rodrigues, enquanto no plasma passavam várias fotos da Diva, que eu havia levado, enquanto se ouvia em fundo musical o "Coimbra", cantado pela Fadista. A grande surpresa da tarde, para mim, foi a actuação do proprio apresentador. Estava à espera dum cantor "pimba" à moda do Peru, mas deparei-me com uma espécie de Rui Veloso à peruana. Gostei. Muita influencia do folclore peruano, uma baladas muito bem concebidas, e sem sombra de dúvida, uma enorme aceitação por parte do publico... Estava " ultrapassado " o meu empenho profissional em Lima, a capital do misterioso Peru. Agora, iria fazer o que me havia impelido a aceitar o convite. No dia seguinte, troquei o "cinco" estrelas,por um hotel mais modesto, e juntamente com Nari e Juan Bello, começamos a planear a minha visita a Macchu Pichu. Mas, essa narrativa ,dará "pano para mangas", para um futuro post, neste mui humilde blog. O que me surpreendeu, ainda em relação à minha presença no " Dos a Quatro ", foi a notoriedade do programa em todo o Peru. Fartei-me de ser reconhecida. Nos restaurantes, nos hoteis, até dias depois na cidade de Cuzco, um vendedor ambulante, acercou-se de mim, perguntando-me se eu não havia cantado, há dias ,na Televisão. Enfim..."fartei-me" de ser "vedeta". Coitada de mim...Eu que sou exactamente o oposto. Nem sequer tenho dinheiro para me vestir como tal...
Publicado por Valéria Mendez em março 12, 2004 01:16 AMEu venho sempre cá, a senhora é que não nota. Também não deixo rasto, diga-se.
Gosto muito destes seus relatos!