Quem o afirma, é DULCE PONTES , a um orgão de Comunicação Social. Ainda segundo a cantora, " ... concordaria se fosse o Folclore, que possui uma imensa documentação histórica..." . Dulce Pontes, põe ainda em causa, os nomes de Carlos do Carmo e de Mariza, "para darem a cara pelo projecto. Porquê eles,e não outros, agora que há tantos nomes novos a cantar o Fado?"- questionava a cantora no mesmo artigo. Esta posição, da nossa cantora de maior prestígio internacional da actualidade,merece-me algumas observações, se bem que a minha opinião sobre o assunto,não terá qualquer importância. Eu não passo duma artista com carteira profissional,mas que na prática ,não passa duma amadora, em todos os sentidos do termo. Sendo o Fado ,uma canção de folclore urbano, não será completamente despropositada a opinião de Dulce Pontes. Ao ser elevado o Folclore Português a Património Mundial, o Fado estaria representado e documentado, tal como o Canto Alentejano, o Malhão, o Vira ou o Fandango. O Fado, como expressão genuína a nível musical, não possui mais do que trezentas melodias, que constituem as variações aos Fados - base ( O Fado Menor, o Corrido, o Mouraria e o Dois Tons), que dariam depois origem aos outros, pelo talento empírico de guitarristas e interpretes do Fado, tais como Marceneiro,Armandinho ou Joaquim Campos, que a partir dessa base, "construiram" outras variações melódicas e harmónicas na guitarra portuguesa. ( Favor ler, ainda sobre este assunto,a minha crónica " O Triângulo do Fado",de 25 de Setembro.) Assim sendo ( e é-o, concerteza), o verdadeiro Fado Clássico tem como legado, cerca de trezentas variações melódico-harmónicas,vindas directamente ,dos quatro "Fados-base" que mencionei. Muitos até ,ficaram conhecidos, pelo nome dos seus "inventores",ou ainda por um nome escolhido pelos mesmos, daí que tenhamos o Fado Vitória, o Fado Puxavante,o Fado Triplicado, o Fado Raul Pinto, o Fado Pedro Rodrigues ou o Fado Pintadinho, entre outros. Daí que, qualquer Fadista, mesmo sem precisar de qualquer ensaio,possa chegar perto de um guitarrista ,e pedir ,por exemplo, o Fado Vitória ,em Sol ou em Lá, conforme a amplitude vocal de cada individuo. O guitarrista executa o Fado, que funciona como "cama", à capacidade improvisativa do Fadista. Por isso, o mesmo Fado ,é cantado por milhentos Fadistas e outros tantos versos diferentes, sendo mesmo possível, para um leigo, não ser capaz de distinguir, que ouviu a mesma musica, com versos diferentes. O proprio Fadista, dependendo da "luz" que o acompanha no momento,é capaz de cantar de maneira distinta,o mesmo Fado. Amália Rodrigues interpretou vezes sem conta, o "Povo que lavas no rio",e sempre diferente. Esse poema máximo de Pedro Homem de Mello, foi "metido" na musica do Fado Vitória,fado esse "inventado" por Joaquim Campos. Fernando Maurício, interpretaria o mesmo Fado, desta feita com uns versos lindíssimos de Gabriel de Oliveira, o "Igreja de Santo Estevão". Ao mais desatento,parecer-lhe-ia tratar-se de duas composições musicais diferentes. Não o são na realidade. Todas as outras composições, tais como o "Gaivota",do compositor Alain Oulman; o "Ai Mouraria", do maestro Frederico Valério, ou o "Vou dar de beber à dor" ,de Alberto Janes ,tornaram-se Fado pela imposição do artista que os interpretou à guitarra portuguesa, dando-lhes, na sua melismática vocal, determinadas "voltinhas" do Fado. Quando Amália gravou " Gaivota",e outros trechos de Alain Oulman, foi severamente criticada pelos "puristas", que a acusavam de estar a "desvirtuar" o Fado, ou a desviar-se dele. Anos mais tarde, o "Gaivota", viria a ser unânimente considerado um Fado. Consequentemente, seria por exemplo possível, transformar o "My Way" de Sinatra, num Fado. Caberia aqui ao guitarrista, adaptá-lo à linguagem musical da guitarra portuguesa,e ao Fadista, interpretá-lo, em tom de fado. Por isso, existe o chamado Fado Clássico , Tradicional ou Castiço, e o chamado Fado-Canção ou Fado-Musicado, aquele que é composto para determinado poema. Em relação à postura de Dulce Pontes, face à escolha dos nomes de Carlos do Carmo e de Mariza, só poderei dizer que realmente, em vez de Santana Lopes os ter escolhido,e como nenhum deles espelha o Fado na sua essência, seria muito mais lógico, apresentar a "OBRA" , nas suas duas vertentes,e aí, teria forçosamente de se incluir Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Hermínia Silva, Argentina Santos, Fernando Maurício, João Braga, D.Vicente da Câmara e Rodrigo,entre outros,e ainda, os nomes dos guitarristas, Armandinho, Artur Paredes, Carlos Paredes, Jaime Santos, José Nunes, Raul Néry, Fontes Rocha, Pedro Leal,Martinho d`Assunção e Carlos Gonçalves, no mínimo. Na capa do projecto, o nome de Amália Rodrigues, aquela que deu a conhecer ao Mundo o Fado, nas suas diversas vertentes. Realmente, colocar Carlos do Carmo e Mariza, na linha da frente de intérpretes vivos e no activo, será no mínimo redutor. Mariza,por exemplo tem só dois discos gravados e uma carreira de três anos. Eu,por exemplo, que só tenho um disco gravado,e daqueles em vinil, possuo um reportório muito mais vasto que o de Mariza, que, em disco e nos seus recitais, limitou-se a "recantar" o reportório de Amália e doutros fadistas. A percentagem de criaçâo de inéditos, é vergonhosamente infima, para quem aparece como "cara" de tal projecto. Já no caso de Carlos do Carmo, apesar de não ser considerado fadista pelos "puristas", justificar-se-ia a sua presença, pelo prestígio internacional que grangeou,e sobretudo pela utilização que sempre deu à guitarra portuguesa,e ao chamado "Fado-Canção" ou " Fado-Musicado", fomentando a criação musical,em nomes que nada tinham a ver com Fado,como Fernando Tordo, José Luís Tinoco,e até do proprio maestro António Vitorino de Almeida, para não falar dos poetas, parte integrante e indispensável do todo, que é o Fado, como Canção de Folclore Urbano. Não serei porventura ,tão fundamentalista como Dulce Pontes. Não direi que é disparate, propôr o Fado, a Património Mundial. Afinal de contas, o Fado, o Jazz, o Tango, o Samba, são estilos defenidos. E são, mesmo sem ser por decreto, um Património da Cultura Mundial.
Publicado por Valéria Mendez em fevereiro 25, 2004 02:53 AMÉ evidente que o fado também faz parte da nossa
identidade, tal qual o tango faz para os argentinos o samba para os brasileiros etc. Não vejo que outro tipo de musica que se canta e faz
por cá se faz sirva para nos identificar. Mas é a opinião da Dulce e não mais que isso. Tem sem dúvida um bom instrumento vocal, como se costuma dizer, mas também pertence à classe dos protegidos e bafejados da sorte nesta santa terrinha.
A sua opinião pode, de facto, não ter importância nenhuma, mas não merece que assim seja. Penso que argumentou muito bem a favor do Fado.
Um abraço,
Francisco Nunes
Na verdade é o tipo de coisa que nao se precisa oficializar... ja ta no sangue da cultura.
Beijos do bacteria
Oi, Valéria!
Eu compreendo a posição da Dulce Pontes. Quando se tenta oficializar algo como o talento de várias gerações é lógico que se entre em conflito e não se conclua o verdadeiro objectivo. Considero a tua alternativa bem mais salutar embora sempre iria estar sujeita a críticas gratuitas!
Um beijo,
eu concordo mais contigo do que com a dulce pontes...
e quero agradecer o comentário no meu ninho.. =)
Afixado por: gata em fevereiro 27, 2004 06:37 PMo fado corre-nos nas veias, violento e vermelho como o sangue rubro bombeado pelo coração... eu não me imagino português sem ele...
Afixado por: D Quixote em fevereiro 28, 2004 12:12 AMSinceramente :(, peço eterna desculpa à Valéria e atodos os os leitores, mas lembro-me da Eterna Amália quando questionada qual a sua preferida se Teresa salgueiro, se Dulce Pontes, Amália ter respomdido Teresa salgueiro e não incluo aqui o porquê...
Fado é uma mistura de músicas dos continentes que deram origem à sociedade mundial actual: Àfrica, Àsia e Europa. Os àrabes quando o ouvem, identificam-se com ele. Houve mesmo uma canção de dulce que saíu num filme de Richard Gere, e levou o fado a ser mais conhecido nos EUA.
Fado já é Património da HUMANIDADE!
Sem palavras... somos sempre nós portugueses que estragamos tudo; desculpe qualquer coisa, valéria, fiquei triste, muito mesmo
Afixado por: golfinho em fevereiro 28, 2004 02:01 AMQual fado?? o vadio? o fado calado?
Afixado por: Eu Zurro em fevereiro 29, 2004 02:48 AMao q isto chegou :( é triste, é típicamente português! Eu zurro, tenha a decência de pôr um mail verdadeiro, que seja seu, e não brinque com um tema tão querido e sério! O fado é e vai ser património da Humanidade! Que mal fizémos nós, leitores da Valéria para "levar" com tamanha desconsideração? Melhor, que fez a Valéria?
voltando à dulce, é incrível, mas ontem na SIC, vi-a a defender o fado num país estrangeiro :-s.
A valéria deve saber mais disto que todos nós, porque conhece mais o "meio", mas parece-me uma desforra "pos-morten" com Amália, parece-me um ego desconformado com as afirmações da mãe: "disseste isto da mana teresa, agora toma!", e anda completamente descontrolada, pois ao mesmo tempo regozija-se por "a canção do mar" aparecer em filmes de hollywood, e por defender o fado em países estrangeiros.
Depois sou eu o desiquilibrado químico...
descuçpem mais uma vez.
Afixado por: golfinho em fevereiro 29, 2004 07:31 PMOra viva amiga!
Mais uma lição interessantíssíma sobre a temática do Fado, este blog é um verdadeiro livro aberto; parabéns e mais uma vez obrigado.
Sobre a opinião da Marisa, bem... é a opinião dela e tem todo o direito a expressá-la, mas não é a minha. O Fado é mais conhecido que o país, por incrível que possa parecer ser, mas é a verdade, portanto, estou em completo desacordo com a cantora.
Um abração do
Zecatelhado
Viva,
Sou um leigo, mas li atentamente o que publicaste e não fico chocado com a proposta. Acredito sim, que a mesma não esteja a ser feita da forma que o deveria ser, mas tal como aconteceu recentemente com as vinhas da ilha do Pico, provavelmente também este projecto terá que sofrer alterações para que possa ser classificado como Património.
No entanto, opiniões, são isso mesmo, meras opiniões... Mas não quereria dizer ela o mesmo que tu?
mais valia nao fazer nada e ficar aqui no nosso cantinho a olhar o oceano! velhos do restelo que voces me sairam! Ainda bem que a Mariza não pensa assim, e vai pelo Mundo fora a cantar em portugues ( não, não é em italiano nem em espanhol como a Dulce Pontes )
Afixado por: Miguel CC em março 5, 2004 11:05 PMAlto aí,e pára o baile Sr. Miguel CC ! Não lhe dou mesmo o direito de me chamar de velho do Restelo.Se tivesse lido algumas crónicas deste meu insignificante blog,vê-lo-ia claramente. Eu não disse que era contra levar o Fado a Patrimonio da Humanidade. Expresso-me,isso sim, contra o aproveitamento que faz a Mariza do reportorio da Amália, e chamando a si os louros do sucesso. Saiba que até eu propria já cantei um tema de Amália para um publico de dez mil pessoas no estrangeiro, e logo que iniciei o fado,houve um aplauso delirante.Eu seria muito pouco realista,se achasse que aquele aplauso era para mim.Claro que o não foi-Foi para Amália-o publico reconheceu o tema e aplaudiu-O ! A falta de humildade e a desonestidade de Mariza, começa desde o seu primeiro disco,e nos primeiros shows em Londres,chamando a si, trechos que não eram criação sua,com a agravante de nem sequer haver uma recriação, mas sim uma cópia. Tenha santa paciência,mas como diz o brasileiro "pra cima de mim NÃO"
Afixado por: Valeria Mendez em março 6, 2004 02:32 AMPerdón por escribir en español. Me parece absurdo crucificar a Dulce Pontes por dar una opinión. Está en su derecho de decir lo que piensa, se esté o no de acuerdo. Basta ya de atacar con tanta saña a la mejor cantante contemporánea de Portugal. No se lo merece.
Afixado por: maxi de la peña em junho 13, 2004 07:03 PM