fevereiro 10, 2004

Saudades do Olympia de Paris em Portugal, ou Flores de AMÁLIA nos degraus de NOTRE-DAME.

Recordar os 54 concertos de Amália Rodrigues, a que tive a felicidade de assistir, desde os meus 17 anos de idade, é um manancial quase inesgotável de sensações, gestos, cores e cambiantes vocais, que dariam para milhentas páginas,e por certo, alguma coisa ficaria por dizer. Hoje, ao encontrar numa gaveta uma foto de Amália, tirada por mim, nos degraus da Catedral de Notre-Dame em Paris, as minhas memórias renasceram em turbilhão, a propósito dessa fotografia ,e de um dos 14 recitais de Amália no Olympia de Paris,a que tive o privilégio de assistir. Já havia estado na plateia do Olympia por diversas vezes ( Para recordar outro momemto de Amália no Olympia, por favor leia a minha crónica "Saudades do Olympia de Paris em Portugal", de 9 de Setembro),contudo este tinha sido muito especial. Na plateia, os Condes de Paris, Mitterrand, Jack Lang, Ira de Von Furstenberg, Carolina do Monaco, alguns membros do clã Rockefeller, Juliette Gréco, Georges Moustaki, Line Renaud, Cargaleiro e Linda de Suza, davam ainda um impacto com maior brilho, ao concerto de Madame Rodrigues. Como se não bastasse, toda uma bateria de jornalistas de várias nacionalidades,a TF1 ainda gravaria um excerto de trinta minutos do espectáculo,para ser incluido num talk-show da TV Francesa,a que Amália iria na semana seguinte. No camarim, Amália, sempre muito nervosa,e pondo nervosos, todos quantos a rodeavam, "alinhavava" com Carlos Gonçalves, o alinhamento possivel do concerto.Sabiamos todos ,que esse alinhamento seria mudado em cena, logo que chovessem da plateia, gritos deste ou daquele fado ou canção, requisitados pelo publico. Amália,desde que se lembrasse da letra, fazia sempre a vontade. Mas, havia certos trechos que Amália iria cantar obrigatóriamente,e esses mereciam da parte da diva,uma atenção especial. O "Ay mourir pour toi", que Aznavour compôs para Ela, e que em 1960 foi disco de platina ,em terras de Edith Piaf, o "Com que Voz" de Camões, tema que deu título ao disco mais premiado da Europa, em todo o século XX, o "Vitti`na crozza",tema incluído num album de recolha tradicional de Musica Italiana, que valeu a Amália diversos prémios em Itália ,e o já recantado "Povo que Lavas no rio", que Amália gravou com Don Byas, num album memorável, um dos melhores da Musica Portuguesa do século passado...No palco ,já se ouviam as variações dos quatro musicos,e a Estrela (secretária de Amália) advertia a Diva que deveria aproximar-se da boca de cena. Poucos segundos faltavam para terminarem as variações introdutórias. Amália levantou-se, qual Ana de Bolena caminhando para a Condenação. Parecia que iria fraquejar. Até nós, que já conheciamos aqueles "tremeliques" estávamos ansiosos. Desde o camarim até ao palco, a Diva "arrastava-se", murmurando palavras de receio, de medo. Houve alguém que lhe agarrou na mão e lhe disse: "Vá lá,lembre-se que você é a Amália"... Ela ficou só, esperando que as cortinas se abrissem. Soaram os aplausos. Estávamos todos apreensivos. Seria desta vez que Amália iria falhar? Lembro-me que rezei um Pai Nosso. Os aplausos fizeram-se mais vibrantes. As cortinas abriram devagar,as guitarras iniciavam uma marcha compassada, Amália entrava em cena, de braços abertos ao som dos gritos de "Amália! Amália!" do publico. Sem nada dizer, arranca com o Fadinho Serrano,saudando os presentes. As primeiras estrofes não foram lá grande coisa.A voz saía velada. Continuávamos apreensivos nos bastidores.Depois do lá-lá-lá do refrão ,a voz melhorou.Mas,ainda estava hesitante, pouco aberta. No final, o publico aplaudiu com entusiasmo,mas sem o brilho de outras vezes. De novo, as guitarras arrancaram,desta vez com "Estranha forma de vida",letra da própria artista. "Foi ... por vontade de Deus..." E aí, ao ouvirmos aquele grito, aquele "Foi...",interrompido pelos aplausos desta vez cheios de brilho e força, apeteceu-me bater na Amália. Eu pr`àli ,naquela aflição,e ela sai-se com aquela voz de sempre, maravilhosa,potente,cheia de côr. A Estrela respirou fundo e disse-nos: " Eu já ando há sufíciente tempo com Ela para saber daquelas fitas,mas desta vez, fiquei apreensiva. Afinal,temos Amália." Era verdade, tinhamos Amália. E que Amália! No final do espectáculo,a nossa Diva foi aplaudida durante 19 minutos( eu vi pelo relógio!),e voltou a interpretar mais cinco "encores", todos eles "disparados" pelo publico,completamente rendido à Voz! ... No dia seguinte, aí pelas 19 horas, a Amália, eu, a Estrela, a Lili e o Guy lá fomos até à Catedral de Notre Dame, depositar as dezenas e dezenas de "bouquets" de flores , que lhe haviam oferecido na véspera. Enchemos uma carrinha Mercedes completamente rasa de flores, e fomos noutro carro até Notre-Dame. Ao chegarmos lá,a catedral estava fechada. Amália decidiu prontamente."Não importa, o que interessa é que as flores vão para Nossa Senhora!" E lá estivemos a carregar as flores (incluindo a própria Amália!),colocando-as aos lados da porta principal da igreja,e depois nos degraus que lhe dá acesso. Passavam transeuntes, que muito admirados, paravam para nos observar. Quase uma hora depois, acabamos o "serviço".Eram 20 horas,e ali estávamos ainda. Amália voltaria a estar no palco do Olympia às 21,30. "Que loucura, D. Amália, ainda temos de chegar ao teatro,tem de se vestir,de se maquilhar,de pentear-se, oh meu Deus,eu disse-lhe que podiamos fazer isto sózinhos, eu avisei-lhe que já era tarde...", matraqueava a competente, e atenta secretária de Amália. A Estrela havia insistido que Amália ficasse. Amália, já dentro do carro, a rir, só pronunciou estas palavras: " Eu tinha de vir oferecer as flores.Ontem Nossa Senhora intercedeu por mim." Só sei que chegamos ao Olympia, já perto das nove horas. Amália lá tomou um cházinho, vestiu-se, foi maquilhada e penteada, e às 21,50 entrava no palco,desta vez sem tremeliques nem hesitação. "Foi Deus,que me pôs no peito...Foi Deus...Ai...E deu-me esta voz a mim." Se foi Deus ou não ... não sei. O que sei ,é que se contam pelos dedos de uma mão,os artistas como Amália Rodrigues. "SÓ DUAS CANTORAS SE PODERÃO COMPARAR A AMÁLIA RODRIGUES, PELA SUA FORÇA INTERPRETATIVA, PELA SUA VOZ E PELO SEU TALENTO: SÃO ELAS EDITH PIAF E OUM KOULTHOUM, QUE ATINGIRAM, TAL COMO MADAME RODRIGUES, O ESTATUTO DE MITO EM PLENA VIDA ARTÍSTICA."- in "Le Monde", Setembro de 1987.

Publicado por Valéria Mendez em fevereiro 10, 2004 03:17 AM
Comentários

E eu juntaria às três-Amália,Piaf e essa OUm Koulthum (que nunca ouvi,mas fui despertado para conhecer...)o nome de Maria Callas e de Billie Holliday, não acha? Maravilhosa essa sua experiencia de ter assistido a esses sucessos da Amalia.Fiquei fascinado!

Afixado por: marcio em fevereiro 11, 2004 09:49 PM