Portugal sofre nos nossos dias ,de uma doença fatal para o seu desenvolvimento- a falta de auto-estima. Contráriamente ao que se passa com "nuestros hermanos", em Portugal ,remete-se sumáriamente ao esquecimento ,referências e valores, que contribuiram para o nosso bem estar mental e histórico. Vem a propósito, um personagem que, infelizmente não cheguei a conhecer pessoalmente, mas que é, sem dúvida, um dos ícones fundamentais de Lisboa e do nosso país: Hermínia Silva. ( Favor ler a minha crónica -"O Triângulo do Fado", de 25 de Setembro de 2003) A "sacerdotiza" de Lisboa, cantadeira de Fado dum talento e originalidade irrepetíveis, é infelizmente hoje, objecto de culto duma minoria conhecedora dos seus feitos artísticos,havendo mesmo, dentro do Fado, criado uma "escola",com seguidores ferrenhos como Beatriz da Conceição ou Alice Pires. Porque será que Portugal a perde tanto, com soluções fáceis de "pimbalhadas" popularuchas, havendo Hermínia Silva para ganhar ? Deixo a questão no ar, relembrando que, por exemplo, em Espanha, a memória dos seus ícones é perpétuada e cultivada, contribuindo para o orgulho nacional. Um amigo meu espanhol, de 24 anos, é capaz de se lembrar quem foi Império Argentina ou Carmen Amaya. Há dias, num convívio nocturno entre jovens portugueses de várias proveniências, falei de Hermínia Silva. Nem um se lembrava do nome. Interroguei-me então, sobre o papel das nossas radios e televisões, que por este caminho, contribuirão grandemente para o branqueamento cultural,e consequente perda da identidade portuguesa. Nesta época de uniões europeias e de globalização, políticas culturais sem preocupações da preservação da memória nacional, levarão inevitávelmente à aculturação,e por este andar, dentro de vinte anos, Portugal será na cabeça de muitos, um país sem referências. Quem não possui na sua discografia, um album de Hermínia Silva, está, pelo menos,a perder o contacto com um dos raros talentos inovadores da linguagem musical do século XX. Por isso, vamos lá ouvir, Hermínia Silva...
Publicado por Valéria Mendez em fevereiro 6, 2004 01:46 PMSão os tempos que correm minha boa amiga. Tristes, por sinal. Guardo boas recordações da Hermínia ( sempre o fado da ginja ) e de alguns outros também esquecidos. Quando acabei de ler o teu artigo veio-me logo à ideia daquele poema que dizia:
Concordo que me falem da Severa
pois nesses tempos já era mais que raínha do fado
Mas entendo fazer lembrar outros mais
desses nomes imortais
de fadistas do passado
Tecer a glória de uma Cesária fadista
de uma Maria Victória ou de uma Júlia florista
de um Armandinho, fadista de uma só crença
Marceneiro e Machadinho
Joaquim Campos e Proença
De todos os nomes que disse
não posso mesmo que queira
esquecer a Maria Alice, Maria Emília Ferreira
depois nesta hora incerta lembrar a Ercília Costa,
a Amália, a HERMÍNIA, a Berta
das quais tanto o povo gosta.
...
Um abração carinhoso do
Zecatelhado
é a 1ª vez que venho aqui e hei-de voltar.
Afixado por: fernando esteves pinto em fevereiro 7, 2004 02:08 PMSaudosa Hermínia. Lembro-me há uns anos atrás
um grupo de colegas do qual fazia parte fomos jantar ao seu solar e para além de nós só havia
um casal de jovens numa mesa. Depois de termos jantado e bebido uns copos de sangria, perguntei
pela Dª. Hermínia tendo a sua empregada informado
que se encontrava na cave mas que estava com uma
forte constipação e que não aceitava cantar. Fui
falar com ela dizendo-lhe ser seu fã e que tinha
tido um grande azar ter escolhido um dia para confraternizar com colegas e amigos sem ter a oportunidade de a ouvir cantar. Mas filho responde ela não estou em condições e a voz não
corresponde e eu não quero desafinar. Respondi-lhe. A senhora jamais desafina. E regressei ao convívio da mesa. Passados uns 45 minutos surgiu
ela com o seu grupo de acompanhamento e brindou-nos com dois fados que nós escolhemos. Foi uma noite inesquecível. Pensamos lá voltar mas tal não aconteceu porque entretanto faleceu.
Recordo-me até bastante bem da Hermínia Silva. Ícone da nossa boa música portuguesa. Quantas vezes a ouvi cantar no gira-discos do meu tio. Excelente capacidade de nos elevar a um estado de imaginação voadora.
Afixado por: Rui em fevereiro 9, 2004 05:32 PM