dezembro 12, 2003

Uma Noite em casa de AMÁLIA, com David Mourão-Ferreira

Subia as escadas do numero 193 da Rua de S.Bento,carregada com um ramo de flores da Madeira. A diva terminara há poucos dias mais uma das suas digressões que a tinham levado ao Japão, Coreia do Sul, Islândia, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Itália, Tunísia e Malta. Desta vez,não me tinha sido possivel deslocar-me a alguns destes países,para apreciar in loco,o talento da nossa melhor cantora. Esta,era mais uma daquelas memoráveis noites,em que Amália graciosamente recebia os seus amigos para mais um convivio,ou melhor para mais uma tertúlia. O salão de Amália continuava igual. O piano,a guitarra, o busto a um canto,os célebres quadros de valor incalculável. "Oh D. Amália, que saudade!",disse-lhe oferecendo-lhe as flores."Muito Obrigada por ter vindo",retorquiu humildemente a cantora."Olhe, quero apresentar-lhe um amigo:David Mourão-Ferreira, que me faz o favor de escrever para mim coisas muito bonitas",adiantou Amália. Os meus olhos esbugalharam-se. Já o conhecia da televisão e dos livros, dos poemas que tantas vezes A Voz cantava. Era a primeira vez que se dava a feliz coincidência,de finalmente encontrá-lo, em casa da nossa amiga comum. Daí a três minutos, já estávamos todos,eu,a Amália, o David,o produtor de Amália Belchior Viegas,a prima de Amália, Maria de Lourdes Agapito,o César,marido de Amália,com a sua habitual boa disposição e Silvana,uma italiana, que tal como eu,fazia parte dos Amalianos, e que já havia encontrado em diversas partes do mundo,em muitos dos recitais da nossa Amiga. A Lili e a Estrela,sempre atentas ao chá e aos bolos secos,encerravam o circulo dos presentes nessa noite. "Hoje está pouca gente",dizia Amália, no meio da conversa." Ontem estiveram cá a Maluda,a Rosinha, o Carlos Gonçalves e o Alain, que regressou esta tarde a Paris." Eram assim as noites em casa de Amália Rodrigues,quando decidia receber os seus amigos. Agora,só daí a dois meses,regressaria "à estrada",outra fabulosa tournée,que incluiria sete noites seguidas no Olympia de Paris,seguindo-se depois a Belgica,a Suiça,a Grécia,Israel e o Libano,dando depois um saltinho ao Brasil e à Argentina. Os presentes garantiram pelo menos a vontade de estar na plateia das sete "soirées" do Olympia de Paris. Fizemos projectos,e a verdade é que nenhum deles falhou a sua presença na temporada de Amália no Olympia. Eu fui um pouco mais longe,e segui a diva até o Libano e Israel.Foram vinte dias extraordinários. Um mês de Setembro fabuloso! A conversa,noite dentro,ia tomando a forma de tertúlia, com Amália sempre interessada nas nossas críticas,na nossa opinião sobre os seus versos,a querer saber o que pensávamos deste ou daquele disco,daquele espectáculo,daquele outro vestido,enfim,as nossas impressões sobre os mais recentes concertos a que haviamos assistido. Lembrei a Amália, que tinha saudades de ouvi-la cantar o reportório do seu premiado album em Italiano, o "A una terra che amo". Confessou-nos,que deveria ter uns "ensaios valentes",pois já se esquecera de parte das letras das canções. Aceitou no entanto ,a minha sugestão de incluir o "Vitti`na crozza",um tema popular siciliano, ao que Silvana anuiu,lembrando que aquele disco havia sido objecto de estudo em Universidades italianas,dado tratar-se duma recolha da musica tradicional italiana,cantada nos dialectos de origem.A crítica italiana não hesitou em considerar aquele album um dos três melhores de "recolha da musica tradicional",ao lado de dois nomes de peso da Musica Italiana: Gabriella Ferri e Roberto Murolo. Com a particularidade de Amália ser estrangeira,e estar incluida nos três melhores albuns de Musica Italiana. Um feito notável, afirmava David Mourão-Ferreira. Belchior Viegas adiantou-nos que inclusivé o disco grangeou dois prémios nos anos setenta,e o galardão de "Disco de Ouro" pelas vendas em território italiano.Dois meses depois,tive o prazer de ouvir esse trecho ao vivo,na temporada do Olympia. Amália era assim. A opinião dos amigos era sempre considerada. Gestos de uma humildade, directamente proporcional à sua grandeza. Senti-me honrada. O David Mourão-Ferreira lembrou-se dum poema,e pediu licença para declamá-lo. Soaram aplausos no 1ºandar do 193 da Rua de S. Bento. Eram já duas da manhã,e parecia que só ali estávamos há quinze minutos. Amália,sugestionada pelo poema do David,lembrou-se dum fado, que pensava incluir no seu próximo disco. A "Prece",de Pedro Homem de Mello. Brindou-nos com a sua interpretação "à capella". A sua voz potente inundava o salão,os seus melismas misturavam-se na noite. Estávamos todos siderados. Ali,não havia intervenção da técnica,era a voz pura de Amália, vibrante, profunda..."Meu Deus, como pode haver alguém que diga que esta mulher já não é o que era?"-interroguei-me mentalmente,desejando que esses (poucos) detractores,a estivessem ouvindo nos seus sessenta e sete anos de vida. Levantámo-nos todos para aplaudi-la. O David beijou as suas mãos. O marido de Amália, com o seu sotaque brasileiro,e a sua boa disposição,comparou Amália ao vinho do Porto, afirmando-se por isso "embriagado"por Amália, há trinta anos. Houve risota geral. As gargalhadas motivaram o César a uma mão cheia de anedotas,a Amália tambem nos brindou com duas. Eu era sempre o elo de ligação com Silvana,que por vezes não entendia o português,e lá ia eu traduzindo. E, por entre mais um chá e mais um bolinho seco,passavam já das quatro da madrugada, quando,um a um, nos despediamos da nossa Amiga, grande Senhora da Pátria de Camões.A Estrela,gentilmente ia chamando os taxis,para quem os necessitava,e lá iamos,alimentados na alma,aquecidos no coração,por mais uma noite memorável em casa de Amália.Ao despedir-me,disse-Lhe um até breve em Paris. Amália repetiu uns quantos "Muit`Obrigada" já habituais. "Eu é que Lhe agradeço,pela honra de me receber em Sua casa. Até breve! Até Paris!"

Publicado por Valéria Mendez em dezembro 12, 2003 02:54 AM
Comentários

Eu nunca vi Amalia ao vivo,só vi um programa da RTP que foi apresentado por Joaquim de Almeida,sobre ela,e nesse documentário tinha excertos de concertos em sítios mais esquisitos tipo Bucareste,etc.Teres a experiencia de ter ouvido Amalia assim,sem qualquer rede deve ter sido o maximo.Tenho 23 anos,e nestes ultimos tempos comprei 3 Cds dela.Eu só tinha um,mas alguns posts teus abriram-me o apetite,e é engraçado que passei a gostar muito mais de Amalia,por tua causa.Tenho um Cd o Amalia "Internacional" e vou-te dizer que não me canso de o ouvir.,tens razão- A Amália é fenomenal.Agora percebo as criticas que fazes a Mariza,reaLmente não tem nada a ver,é o mesmo que comparar a Mafalda Veiga com a Rute marlene ou lá o que é...

Afixado por: Marcio Miguel em dezembro 12, 2003 06:53 AM

Olá Valéria,

Li o seu blogue com entusiasmo, por todas as suas revelações que faz, de si própria e da vivência de Amália.

Fico seu leitor.

Beijão,
Luís

Afixado por: Luis Eusebio em dezembro 12, 2003 11:07 AM

Infelizmente não consegui ter essa captação. A vida e as minhas opções entretanto não me deixaram vivenciar esse portento. Neste momento temos os DVD 's e os CD's, mas como tu mesma me deves afiançar, nada equipara uma presença ao vivo de tal Diva.

Afixado por: Rui em dezembro 12, 2003 01:45 PM

Este post fez-me lembrar o cd de Amália e Vinicios de Morais que foi editado salvo erro a cerca de 2 anos.´Quem não teve o previlégio de conhecer e privar com a Amália tem nesse cd um cheirinho do que eram as turtúlias em sua casa. Embora desde que me lembro goste de Amália, também por culpa da Valéria voltei a redescubri-la. Um bem haja.

Afixado por: Amnésia em dezembro 12, 2003 03:33 PM

Foi então esta a noite em que coincidiu com o David Mourão Ferreira em casa da Amália? Ainda bem que o meu "post" a fez recordar aquilo que foi obviamente uma noite especal... Também eu gosto muito da Amália. Como artista claro e porque daquilo que vou conhecendo da vida dela julgo ter sido uma pessoa excepcional...

Afixado por: castafiore em abril 19, 2004 11:25 PM

Fiquei enfeitiçado pela voz da Amália há muitos anos: por causa dela começai a tocar guitarra e cantar fado... e também teria gostado ser dos "Amálianos": o amor que eu tenho a essa mulher inesquecivel teria sido bastante. Infelizmente, o tempo e a distancia náo consentiram. Por isso eu queria, pelo menos, saber dela: seria possivel conhecer demais das suas lembranças? Obrigado - Francesco

Afixado por: francesco marcheselli em abril 20, 2004 11:23 AM