dezembro 07, 2003

Cantando " Lisboa Antiga " na Sicilia (3) - O Espectáculo

Às quatro da tarde do dia seguinte,depois de um lauto almoço,cheio de conversas interessantes,e as sempre bem humoradas tiradas da Condessa,uma carrinha veio buscar-me para o "ensaio de som", no Teatro Communale. A Gala,dividida em duas partes,tinha um alinhamento simples: Alternavam um Grupo de Folclore local,com um artista de nome Antonello Bendetti, conhecido "cantautore",duma linha muito paralela a um José Mario Branco português,uma intervenção a cargo da organização,falando das vivências diárias de uma Associação que dá apoio a crianças com SIDA,seguida da minha participação com dois temas,seguindo-se Alice,uma espécie de Adelaide Ferreira à italiana,vencedora de dois Festivais de San Remo,de novo outra participação local,um grupo de musica etnográfica de Catalnissetta,interpretando duas musicas tradicionais,e para terminar a primeira parte a presença dum artista muito querido em França,a segunda presença estrangeira,para além de mim, o francês Frank Brun,muito conhecido pelas suas canções de solidariedade em Festivais da Unicef.A segunda parte,para além duma intervenção do Presidente del Commune ( Câmara local),seria da total responsabilidade da atracção principal: Eros Ramazzotti ! O ensaio de som,no meu caso, não tinha nada que saber. Dadas as minhas parcas possibilidades para poder levar musicos desde Portugal, tinha de me socorrer de playbacks instrumentais de estudio, fazendo porém questão de cantar em directo, até porque todo o elenco o ia fazer... O anotador, havia-me já avisado de que entraria em cena,depois do discurso do Onorevole Giuliano D`Oreno,dirigente da Associação beneficiada. Havia , duas horas antes, sido penteada e maquilhada num ambiente muito espalhafatoso,por um conhecido maquilhador, muito excêntrico, que passou todo o tempo a contar-me anedotas picantes,no meio da algazarra de Alice,uma bem disposta figura,de voz rouca,e com um sentido de humor de ir às lágrimas. Escolhera um simples modelo preto/prata de duas peças,calças e tunica. Aliás, mesmo que quizesse mudar,não o poderia fazer, era o unico traje de cena que havia trazido desde Portugal. Dum canto dos bastidores,consegui ver a sala repleta do velho teatro,que escapara às vicissitudes de duas guerras mundiais. Na primeira fila, lá estavam os colunáveis,a Condessa e o casal Pietro e Tijen,e outras individualidades,para mim irreconhecíveis. Por momentos, tremeram-me as pernas, eu sabia que ali estava, só por ter sido colega de faculdade da nova Condessa,a turca que se havia tornado, nora da Condessa de Catalnissetta,uma das mulheres mais ricas da região. Nada mais. Seria o que Deus quizesse,e a minha voz ajudasse. Súbitamente, o apresentador anunciou: " È stata studente universitária in Italia, voce nata all`Isola di Madeira,Portogallo, seguitrice della mágica di Amália Rodrigues, Vi presento Valeria Mendez." Agora,já não podia fugir. Não havia outro remédio,senão avançar...Entrei ao som de "As mãos que trago",poema da brasileira Cecilia Meirelles, musicado pelo compositor de Amália, Alain Oulman, numa orquestração nova,diferente daquela de Amália, sem quaisquer rasgo de paralelismo. Cantar Amália, só se fôr assim. Se caímos na tentação do registo amaliano, por força que daremos algumas cambalhotas. Não se pode imitar um génio!..." FORAM MONTANHAS, FORAM MARES / FORAM OS NUMEROS,NÃO SEI/ POR MUITAS COISAS SINGULARES/ NÃO TE ENCONTREI,NÃO TE ENCONTREI..." No final,aplausos. A Tijen aproxima-se da boca de cena. Faz um aceno. Acerco-me da beira do palco. Pede-me o microfone. " Sapete una cosa? Valeria ed io, avevammo diciassette anni, quando abbiamo,per la prima volta, visto Amália Rodrigues a Perugia. Grazie di essere venuta!" Já de posse do microfone,retorqui: " Ti ricordi, Tijen, di questa canzone, Lisboa Antiga? È di Amália! Grazie a tutti,e arrivederci!". Neste momento, iniciava-se a melodia de Lisboa Antiga,musica de Raul Ferrão, que Amália, há mais de vinte anos, havia também cantado num velho teatro da cidade etrusca de Perugia, perante uma plateia, maioritáriamente constituída por jovens universitários, entre os quais, Tijen e eu. " LISBOA,VELHA CIDADE,CHEIA DE ENCANTO E BELEZA/ SEMPRE A SORRIR,TÃO FORMOSA,E NO VESTIR, SEMPRE AIROSA..." No fim, toda a sala, trauteava entusiásticamente o refrão, num lá lá lá aberto, harmónico, proprio de quem conhece a melodia.Aplausos.Uns quantos gritos de "Brava! Brava!", fez-me subir ao sétimo céu. Eu não sou uma pessoa feliz. De todo! As minhas angustias,os meus medos,as minhas frustrações parecem ser sempre mais fortes. Mas, há momentos, em que posso dizer, que "molhei o pé" nas águas da praia dourada da felicidade. E esse, era um deles... Terminara ali, o motivo da minha viagem à Sicilia... Daí a uma meia hora, transformava-me numa louca fan de Eros Ramazzotti... Que noite! E que pena, de Eros só ter trazido um disco autografado,e um beijinho na face. Enfim...São momentos como esse, que me fazem zangar com Deus, por não me ter concedido a "força" duma daquelas louras de arrasar, que param o trânsito em qualquer parte do mundo. Azar o meu. Ainda bem...Para a mulher dele! Claro.

Publicado por Valéria Mendez em dezembro 7, 2003 09:34 PM
Comentários

Gostei. Sentimentos transmitidos por palavras...não é assim tão comum. Volto a repetir: gostei.

Afixado por: Alexandre em dezembro 8, 2003 07:53 PM

Gostei da tua expressão: "sem qualquer paralelismo com Amália". Sei das tuas convicções. :-)
Amiga, Louras de arrasar há muitas. Mas pessoas como tu são demasiado poucas. Prefere-se mil vezes uma Valéria Mendez que uma qualquer top-model pré-anoréctica.
Beijos,

Afixado por: Rui em dezembro 12, 2003 01:37 PM