O carro, subia penosamente a estrada de terra batida ,que serpenteava a encosta da montanha. Por momentos recriminei-me, pelo esforço a que obrigava o meu automóvel,transformando-o num todo-o-terreno feito à pressa.Contudo a expectativa de poder chegar à "cachoeira",ladeada pelo verdíssimo das árvores e plantas do Chão da Ribeira, serra da zona do Estreito da Calheta, Madeira,passava para segundo plano,o remorso dos golpes a que inflingia, o meu Alfa Romeo. De quando em vez ,dá-me pr`a isto ! Pego num livro, na minha guitarra, e num bom charuto ( prazer quase inconfessado que grangeei por terras de Simon Bolivar !), e lá vou eu, em busca da Paz. Desta feita,o livro era " Brida", de Paulo Coelho e o charuto um Cohiba, secretamente guardado ,para estas ocasiões mágicas. O carro não podia avançar mais. Havia demasiados sulcos no caminho. Estacionei-o,e percorri uns bons quinhentos metros até alcançar o sítio do desejo. Ali estava aquela água cristalina, descendo do monte, aquelas pedras enormes, quais guardiães dum templo sagrado,e os pinheiros e eucaliptos ,que exalavam um odor inconfundível. Estendi uma toalha no chão,pousei a guitarra e a bolsa , sentei-me, e respirei fundo. Apetecia-me naquele momento ,saudar o Universo,pela beleza que me proporcionava. Comecei a ler Paulo Coelho. Não podia ter encontrado melhor autor para apreciar naquelas paragens. Passara mais de uma hora. A narrativa do escritor brasileiro era viciante,profunda. Decidi pegar na guitarra. Como pano de fundo, haviam alguns passarinhos dialogando no seu Canto,o murmurio das águas puras,e o verde da minha paixão. Fundo-me naquele ambiente, e da guitarra saem algumas notas. Sem preocupação de "acertar".Subitamente, lembro-me duns versos de Pedro Homem de Mello,e canto-os: AO PASSAR POR UM RIBEIRO/ ONDE ÀS VEZES,ME DEBRUÇO/ FITOU-ME ALGUÉM, CORPO INTEIRO / DOBRADO, COMO UM SOLUÇO...A minha voz sobressai no eco,e inventa novos caminhos, para aquela melodia de Alain Oulman. Por espectadores,tenho fadas, duendes, gnomos e orixás-os quatro elementos.No final, parece-me que não estive só no meu Canto de prazer. Tenho uma sensação de "companhia", de estranha felicidade. Lembro-me dumas sandes de bolo-do-caco, fresquíssimo.Abro a bolsa, e saboreio aquele pão caseiro. Ali, ele tem mais sabor. É um regalo para os sentidos. Tenho forçosamente de agradecer mentalmente à Terra, que me proporciona momentos assim. De repente,recordo-me do Cohiba, presente dum amigo latino-americano.Acendo-o, dedicando-o aos Quatro Elementos, e ali fico a ver, desenharem-se no ar, formas indecifráveis que se elevam na atmosfera,misturando-se com o cheiro a eucaliptos, e a terra do chão. O momento é unico. Quase metafísico, a paz é profunda e o prazer, raia o irreal. Lembro-me neste momento, duma velha India que conheci na Montaña de Sorte, na Venezuela. A velha senhora também fumava seus "puros", num ritual esotérico, que levaria à incorporação de uma entidade qualquer, que viria,dos domínios da Morte, ajudar os vivos.(Recordo esse episódio na crónica LA BRUJA MAYOR.) O meu "ritual" chega ao fim, faço uma pequena cova na terra castanha, e de mãos nuas, enterro os resquícios do meu prazer.Volta à terra, de onde veio... Olho o céu, e reparo que o sol está a se pôr. Levanto-me, abro os braços, como que a saudar a Mãe Natureza, que me ofereceu aquela tarde magnífica. Uma hora depois, chego ao Funchal. Sinto-me estranhamente forte, estranhamente enérgica, invulgarmente feliz. "Carreguei as baterias", pensei eu, metendo o meu pobre carro empoeirado na garagem. "Levar-te-ei à lavagem, amanhã de manhã.Bem o mereces, depois de tanto esforço.", prometi eu ,ao meu esforçado Alfa. Tive até a impressão que ele ouviu os meus pensamentos, respondendo-me num "ranger" qualquer, ao fechar-lhe a porta.
Publicado por Valéria Mendez em novembro 10, 2003 01:02 PMCoitadinho. Ficou "magoado" contigo. :-)
Isso deve ser simplesmente mágico. Acho que uma presença humana nessa situação, apenas estragaria o momento.
Bejo.
Adorei a prosa.
Por breves instantes consegui visualizar todo esse cenário.
Até sempre.
Afixado por: Axê em maio 19, 2004 02:44 PM