novembro 03, 2003

Ainda a Saudade de AMÁLIA RODRIGUES- Memórias dum concerto em Roma/1991

Será dificil para mim ,escolher,dos 54 concertos de Amália, a que asssiti ao vivo, aquele que mais me impressionou. Os recitais do Olympia de Paris, os três espectáculos no Líbano,aquele autêntico banho de multidão que Amália recebeu, num concerto memorável em Istambul,na Turquia, os célebres "Coliseus" de Lisboa, povoam a minha mente de recordações do talento, da força ,e da autenticidade daquele imbondeiro, voz dum Portugal trilhado por Vasco da Gama, universal e diásporo. Apontam alguns menos esclarecidos o pretenso declíneo de Amália, nos seus ultimos anos de carreira,desconhecendo verdadeiramente os "feitos"de Amália ,nesses ultimos, mas belos anos, da sua existência como cantora. É certo que, a Amália dos anos noventa ( Ela só cantaria até 1995), não possuia, como é óbvio,a cristalinidade dos seus tempos aureos, nem sequer a tessitura fantástica da Amália aos cinquenta anos de idade, que se pode admirar em albuns como "Com que voz" , "Amália canta Portugal 3" ou ainda em "A una terra che amo",só para citar alguns dos albuns da década de setenta. A capacidade interpretativa, a inteligência e técnicas vocais da artista, mantiveram-se contudo ,mesmo depois dos 70 anos de idade, em que a profundidade,a extensão vocal, e a melismática dos graves, se fizeram mais presentes, compensando a falta dos agudos e da "cristalinidade", que naturalmente se esvairiam com os anos, pois mesmo com os deuses, a idade não perdoa. Amália é pois, o exemplo mais perfeito da manutenção da qualidade vocal numa carreira que ultrapassou os cinquenta e cinco anos,mostrando nas diversas fases da sua voz, qualidade, inteligência,técnica vocal, energia, que aliás foram seu apanágio até o fim.Cantar mais de duas horas, ao vivo, e com a responsabilidade de ser-se um "mito" vivo, foi o desafio a que Amália se propôs,e conseguiu-o, sem pisar o risco da decadência.Lembro-me do seu ultimo recital em Portugal, no Coliseu, em 1994, em que Ela foi brilhante nas extensões dos melismas com que nos brindou ,em clássicos como "Povo que Lavas no Rio", e mostrou-nos o prazer pela sua profissão,ao oferecer-nos inéditos, nunca gravados, desta vez acompanhada ao piano, sempre entusiasmada pelas inovações, qual cantora principiante, que "testa" ao vivo, as sua capacidades artísticas,sempre com a paixão da descoberta .Amália foi inovadora até ao fim.Só a doença, a incapacitou de lançar mais algumas pérolas, sempre com a preocupação de ser fiel a si mesma,honesta nos seus processos ,e sobretudo abrindo novos caminhos à Musica, respeitando a essência da sua própria cultura... Um dos concertos de Amália nos anos 90,a que tive a felicidade de assistir,foi em Roma,mais propriamente em Caracalla, local célebre pelos grandes espectáculos de vedetas como Pavarotti ou Sting, na actualidade, ou ainda de Maria Callas ou Edith Piaf,nos longínquos anos cinquenta ou sessenta. A sua voz conquistou um publico heterogéneo, de idades e culturas tão díspares.Para além duma maioria italiana, haviam muitos americanos e gentes de outras nacionalidades.Era tempo de Verão,e Roma transbordava de turistas.A "Regina" cantou quase três horas, desfiando algumas joias do seu reportório mais recente, como "Entrega", "Prece","Obsessão","Lágrima" ou "Grito". Os milhares de pessoas que enchiam o recinto ao ar livre, faziam um silêncio quase biblico, enquanto o"mito" se fazia realidade, na extensão e profundidade da sua "voz rouca de cobre e veludo,duma força e duma capacidade inatingíveis", segundo referia no dia seguinte, um exigente crítico musical do "Corriere della Sera". "É uma força da natureza, como pode Ela, aos setenta anos estar ali quase três horas, com aquela energia, aquela voz potente , aquela entrega total?", escrevia o mesmo articulista. "Barco Negro","Ay mourir pour toi", "Abril em Portugal" e "Gaivota", foram outros dos temas mais antigos, longamente aplaudidos. Um alinhamento dificil, uma escolha de reportório que "puxa" muito pela capacidade vocal, mostrou-nos uma Amália rendida à sua própria felicidade, uma Amália que tinha 72 anos, mas que parecia ter 50. Um estrondoso sucesso, acreditem, um fenómeno mesmo,acrescentaria, sem qualquer hipótese de me acusarem de "excessiva" ou exagerada. A Artista, daria por terminado o show com um Malhão, não deixando de brindar a assistência com uns improvisos vocais,as tais "amaliazadas" conforme a propria Amália referia.O publico, no final ,gritava por mais "encores", ao que a diva não se fez rogada, interpretando mais três temas,um deles em siciliano,o "Vitti na Crozza", que a cantora havia gravado nos anos setenta.Quando a minha memória discorre sobre os 54 concertos de Amália ,a que tive a felicidade de assistir,acabo sempre por me "surpreender",com este ou aquele detalhe ,da Arte Maior da nossa rainha. Recordo-me, neste preciso momento, do ultimo trecho de Amália, neste memorável concerto de Roma,o "Foi Deus", em que o "vocalize " da palavra "azul", ainda hoje me transporta ao local, qual viagem astral tão "real", quanto um sonho acabado de sonhar. Aquela força, aquela extensão daquele "azul"dos versos de Alberto Janes, cantado por Amália,é todavia ainda, o "clic", que me faz transportar a Caracalla, no Verão de 1991.Um momento de magia "ormai irripettibile". Transcrevo,para finalizar, as palavras de André Pautard, chefe-de-redacção do "Express",e um dos jornalistas estrangeiros presentes para a cobertura deste concerto: ..." Que outros artistas, antes de Amália Rodrigues, terão tido a capacidade de cativar povos de culturas tão diferentes,e atingir em vida um estatuto sagrado, de mito incontornável,aliado a uma verdadeira qualidade vocal e interpretativa,sem processos nem campanhas de marketing? Duas, sem dúvida- Edith Piaf e Oum Koulthoum, que foram igualmente monstros sagrados, capazes de galvanizar sem concessões,auditórios heterogéneos, com a mesma intensidade e sucesso, ao longo das suas carreiras."

Publicado por Valéria Mendez em novembro 3, 2003 09:01 PM
Comentários

Cara Valéria

É com enorme prazer e ao mesmo tempo com uma certa timidez que venho por este meio escrever algo na tua página.

Antes de demais sinto uma certa curiosidade pela tua pessoa, coragem e determinância pois eu já alguns tempos (anos) teria ouvido o teu nome no ar e claro simpatizei logo (pois sem te conhecer), sabia que gostavas de Amália e parece já para nós amalianos (meio caminho andado).

Vários amigos intimos de Amália me tinham falado de ti (Adriano, Eng. Pereira, Noel, Lili, Estrela, etc).

Até que começo a ler as tuas intervenções no site do sapo sobre Amália e para mim que tenho 31 anos é muito bom partilhar informações com alquém que teve o privilégio de assistir a muitos espectáculos de Amália.

Eu sou um admirador quase que fanático (com conta, peso e medida). Gostaria de te dizer que tenho um grande espólio da carreira artistica de Amália, pois só através dessa imensa carreira eu poderei continuando ouvindo a grande voz. Gostaria de um dia poder trocar fotos, gravações (audio ou video), recortes, etc. Acho imprescindivel salvar todo o espólio de Amália. Só mesmo com pessoas como tu que tiveram esse privilégio de privar com ela no estrangeiro posso dar continuidade a este grande trabalho.

Grato

RICARDO

Afixado por: RICARDO em dezembro 2, 2003 04:52 PM