O carro patrulha entrou num edifício moderno, que ostentava a bandeira de Israel, e quatro homens armados à porta. De repente, fui "obrigada" a sair da viatura,e subi uma escada de acesso a uma grande sala. Disseram-me que esperasse. Protestei, afirmando que ainda teria que percorrer mais de 50 Km até Jerusalém, onde estava hospedada. Eles nem responderam. Cinco minutos depois, mandaram-me entrar num gabinete, onde um oficial, careca e anafado, me aguardava. O gordo sorriu para mim, e apontou uma cadeira, frente à sua secretária. " Então você é artista, e é de Portugal. Belo país o seu. Vejo também que um dos seus apelidos é "Mendez",sabe que é um nome de origem judaico?", adiantou o oficial,e sem me deixar responder acrescentou:"Vejo no seu passaporte várias entradas em Israel.A que devemos a honra das suas visitas?,concluiu. "Pois é", retorqui eu ,muito calma." Vocês já condecoraram, e muito justamente ,um português de nome Aristides da Silva Mendez, que muito fez por vocês, durante a Segunda Guerra.E orgulho-me muito do meu nome. Já não posso dizer o mesmo ,do que se passa actualmente neste país, que tem uma memória muito curta,e está a fazer agora a outro povo, o mesmo que Hitler vos fez há umas dezenas de anos, não é?, disparei, sem respirar. "Ah, é tudo uma questão de interpretação, Miss Mendez", afirmou o militar."Mas ,respondendo à sua pergunta, eu tenho entrado sempre no vosso país, com um visto da vossa embaixada em Lisboa,e não faço segredo daquilo que faço, sabe, eu sou pacifista, activista do Comité Francês para a Palestina, e defendo ideias, que muitos de vocês aplaudem.Afinal, o "Likud"(Partido de direita, no Governo), não representa a totalidade das tendências políticas no seu país, não é assim?", ironizei, retribuindo o sorriso caustico do meu interlocutor."Aí está", disparou o anafado oficial, "somos um país democrático". Eu nem respondi, limitei-me a dar uma pequena gargalhada."Mas então ,satisfaça a minha curiosidade", inquiri eu ,"qual a razão desta minha detenção?".O homem suspirou fundo, puxou de um cigarro, acendeu-o,e respondeu-"Sabe, você está em Tel Aviv, uma cidade israelita. Aqui não há terroristas, nem os admitimos cá. Não aceitamos provocações". "Como assim ? ", gritei . "Oh minha cara,você pavoneia-se pela cidade, com esse Kafieh (lenço típico palestiniano) ao pescoço. É de muito mau gosto usá-lo aqui. Se quizer , use-o em Gaza ou Ramallah. Não aqui !", vociferou o homem, perdendo a compostura. Fixei o gordo, puxei de um cigarro sem lhe pedir licença, acendi-o, encostei-me bem à cadeira, e dei uma sonora gargalhada- " Ah, e vocês são tão democráticos, que gastaram dinheiro do erário publico, para me dizerem que não posso usar o kafieh ? Ah vocês são, sem duvida, um grande modelo de democracia! Muitos parabens!". O oficial remexeu-se no cadeirão, e secamente concluiu-"Lembre-se que aqui ,você é uma hóspede! Preencha este formulário de identificação,e guarde esse lenço.", colocando um papel azul à minha frente. Sem palavras, preenchi-o com o meu nome, actividade profissional, residência em Jerusalém ,e motivos da minha presença em Israel. Sem me agradecer, chamou dois subordinados, disse-lhes qualquer coisa em hebraico, olhou para mim, e sentenciou-"Estes homens vão levá-la ao local onde estava." Ia a sair, quando o homem me interpelou furibundo- "Então você diz aqui, que se encontra no Hotel St Georges, em Jerusalém Oriental, PALESTINA? Jerusalem ,é toda de Israel, é a capital de Israel", berrou o homem. Ainda na porta,metendo o lenço na carteira, e em tom jocoso, retorqui-lhe-"É tudo uma questão de interpretação ,não é? Afinal há tantos países que recusam sediar as suas embaixadas em Jerusalém, não é caro senhor? Ah...e excusa de gastar mais gasóleo do erário publico.Prefiro sair a pé!", concluí ,sorrindo. Virei as costas ao homem,deixando-o a pronunciar algumas palavras imperceptíveis... Passados dez minutos, apanhava um táxi em direcção a Jerusalém, pensando no ridiculo de toda a situação. Santo Deus, ao ponto que chegam os fanatismos e as intolerâncias... (FIM)
Publicado por Valéria Mendez em outubro 31, 2003 02:18 AMApreciámos muito o seu relato da sua actuação em Israel. Muito corajosa e humana. Realmente a maioria dos governos de Israel tem sido uma vergonha para o povo judeu, que tanto tem sofrido também ao longo da História. Um povo esclarecido, culto, que tanta sabedoria transmitiu ao mundo, como pode agora ter tantos filhos que são carrascos de outro povo?! Ainda bem que há sempre gente que persiste na luta contra as forças negativas que teimam em inundar tantos corações humanos.
Afixado por: Helices em outubro 31, 2003 09:53 AMVivo num conflito interior enorme. É um grande esforço que faço para não ficar injusto e intolerante com tanta gente que é injusta e intolerante.
Afixado por: Amnésia em novembro 1, 2003 01:57 AMÉ absolutamente horrivel o que se passa. Admira-me a tua calma numa situação como esta. Infelizmente sou algo estouvado e não penso nas consequências. Isso ferve o meu sangue.
Lamento que isso te tivesse sucedido e lamento muito mais que isso ocorra muito mais frequentemente com os palestinianos.
:-(