outubro 21, 2003

Cantando para Portugueses da Venezuela

A Venezuela é o país estrangeiro ,que maior numero de madeirenses alberga,e é um grande ponto de emigração dos anos 60 e 70. O ultimo census, apontava para o numero, de mais de trezentas mil almas lusas, que laboraram ,e se adaptaram àquele país sul-americano. É um país apaixonante, direi mesmo viciante, dadas as diferenças que se encontram ,quando nele se viaja. Passamos tão rápidamente ,dum tipo de sociedade urbana e industrializada, à pura vivência de índole quase tribal, entrecortada de pequenas localidades, onde a vida discorre sem a panaceia dos modernismos tecnológicos. É também ,o tradicional país latino-americano, onde se vive em grandes metrópoles, com pressupostos de segurança e cuidados, que nunca nos passaria pela cabeça, mesmo em pleno Bairro Alto lisboeta da actualidade. Caracas, é considerada a capital americana menos segura.A corrupção não é vista como tal, mas como um fenómeno normal; tudo custa dinheiro, e tudo, ou quase tudo, se consegue com dinheiro. O quinto maior produtor de petróleo do Mundo, vive de expedientes,e de decisões pouco hábeis, de políticos muito convencidos, preocupados sobretudo em "sacar "o máximo, no menor período de tempo. Vive-se contudo a democracia, o povo manifesta-se nas ruas, a maior parte das vezes, influenciado pelos dois sectores mais importantes da sociedade:os pró-americanos(pro-USA),e os sonhadores, na linha de um Simon Bolivar ou de um Che Guevara, irascívelmente anti-americanos, que encontraram em Fidel Castro um aliado "amigo" e incondicional.Pessoalmente atiro-me ,porventura irresponsávelmente , mas enfáticamente apaixonada, pelos "sonhadores", que ainda cantam as canções de Che, nas ruas da capital venezuelana.(Permita Deus que o Alberto João, não seja meu leitor neste humilde blog !). Eu já havia estado na Venezuela algumas vezes, mas desta feita, a minha presença naquele país, prendia-se a um convite do Centro Português de Caracas, que organizara uma autêntica digressão, muito bem elaborada,e de fazer inveja a qualquer vedeta da Canção. A "tournée" incluia vários concertos no Centro Português, assim como ,presenças em diversas cidades como Maracay, Maracaibo e Barquisimeto, onde se vive apaixonadamente a saudade de Portugal. O Centro Português de Caracas, é uma das obras mais grandiosas da cidade, que inclui um verdadeiro complexo recreacional, com restaurantes, salas de jogos, bibliotecas, salas de estudo, onde se ensina o Português a vários níveis;piscinas, campos de ténis, sala de congressos, sala de espectaculos, uma capela, enfim, trata-se dum pequeno império português, maioritáriamente frequentado por madeirenses, mas também por patrícios de vários pontos do Continente Português, de várias gerações, os mais jovens já integrados na sociedade venezuelana, com formação universitária ,e responsabilidades profissionais ao mais alto nível. Desde um recital que dei para mais de duas mil pessoas em Caracas, a um outro para mais de mil em Maracay, guardo recordações e afectos inigualáveis.Ficou-me a memória de gente "valerosa", cheia de saudade do seu país, que ainda possuiam a capacidade de chorar, ao ouvir um verso dum qualquer poeta luso. Lembro-me daquela senhora em Maracay, que de olhos vidrados me abraçou fortemente no final do espectáculo, dizendo-me:"Olhe, você não sabe o bem que me fez...",e ainda do jovem casal de luso-descendentes, ele engenheiro e ela advogada, que vieram cumprimentar-me ,e agradecer a "aula de cultura portuguesa" que lhes havia proporcionado. Foram momentos de grande emoção, de gente que ainda hoje continua um pouco esquecida, pelos sucessivos governos pós-abrilianos, que pouca atenção têm dado, à sequiosa vontade destas gentes, que continua a querer perpétuar a nossa língua e a nossa cultura,no país, onde apesar de tudo, encontraram melhor vida, do que aquela que a sua pátria lhes proporcionou... Como corolário desta digressão fabulosa, tempos depois, andava eu calmamente no meu jogging matinal na zona do Lido, Funchal, quando de improviso, fui abordada por um numeroso grupo de jovens luso-venezuelanos de visita à Madeira, provocando um "sururu" atónito dos locais, ao verem-me rodeada de tanta gente ,que me pedia autógrafos,e recordavam entusiásticamente essa minha tournée por terras de Simon Bolivar. Dias mais tarde, numa rua do centro do Funchal, o conhecido fotógrafo madeirense João Pestana, interpelou-me, estupefacto: "Olhe, realmente nunca pensei que tinha feito assim tanto sucesso na Venezuela; aquela gente toda a lhe pedir autógrafos, vou-lhe dizer, se me contassem não acreditava!". Balbuciei um obrigada,e continuei o meu caminho sorrindo, e pensando que são os portugueses que vivem em Portugal, aqueles que menos auto-estima possuem. Felizmente, Portugal vai-se cumprindo na diáspora, em locais tão distantes e tão diferentes ,como a Venezuela, o Canadá ,a França ou a África do Sul.

Publicado por Valéria Mendez em outubro 21, 2003 02:37 AM
Comentários

Sabes que os portugueses e os seus descendentes têm uma visão mais romântica e saudosista do seu País. Coisa que os residentes no Continente e Ilhas tendem a esquecer. Preferem dizer mal do dia a dia e de se compadecerem constantemente. Não agradecem as coisas boas da vida por viverem num País que considero dos mais belos do mundo. No seu todo. Mas principalmente pela sua gente e história. Gostaria que todos pudessem um dia, viajar para outros destinos e ficarem lá fora um mês ou dois. Quando viessem. Fosse qual fosse o País, teriam saudades tremendas da vida singular que se pode atingir neste País à beira mar plantado.
Há que se ter amor e consciência por um País que faz parte de nós quer o queiramos, quer não!

Afixado por: Rui em outubro 21, 2003 12:18 PM

Valéria
É com enorme prazer que recebo o seu comentário e venho responde-lo:

Eu sou Brasileira e tenho outros blogs, e quando cheguei ao weblog achei interessante a opção e até pensei em usa-la, mas não tem muito haver comigo, parei dois blogs pq estava me esgotando e não quero isso de novo. Quero um blog que me faça bem, me deixe bem, primeiro para comigo, e depois para quem quiser ler, meu objetivo é pensar em mim em primeiro lugar (horrível declarar isso, já que parece um tanto egoísta e na verdade pq sempre fiz blog de maneira exibicionista (não no sentido de dizer coisas íntimas e pessoais) quero dizer, me preocupava com os outros, ficava horas a fio pensando o que escrever, como escrever, que imagem colocar, e um belo dia chutei o balde e vi q o meu blog estava sendo desgastante e não prazeroso, entende?)

Afixado por: Roberta em outubro 23, 2003 12:16 AM

Ola Valeria Soy hija de maderenses y me gustò mucho tu show en el centro portugues.Quando vuelves?

Afixado por: luisa em outubro 28, 2003 06:24 AM

É muito bom ver o que escreve uma madeirense como a Sra, gostaria eu que pelo menos 20% da população da Madeira assim pensasse, pois decerto que a democracia teria outras cores, as cores da liberdade de falar sem receios, as cores de um povo culto e sabedor etc, etc, e muitos etc's se seguem infelizmente. Sou continental e estou na Madeira há seis, mas as desilusões começaram logo no primeiro e agora nesta altura estou desejoso de sair daqui, acho que isto é subejamente uma África minor, não uma Europa culta como Jardim pretende fazer crer. Um grande bem haja para si.
Paulo Lima

Afixado por: Paulo Lima em janeiro 19, 2004 07:29 PM

Ayuda!
Me disculpan por no poder escribir in Portugues.
Mi padre a quien nunca he conocido era de Madeira,o es de Madeira. Me gustaria solicitar ayuda para ver si por intermedio de ustedes podria localizarlo o ponerme en contacto con algun familiar.
Su nombre es Armando Tavares de Oliveira, en los anhos 40, tal finales de los anhos 40 tenia un hotel en Macuto, Venezuela. El nombre del hotel era Hotel Suiza y su socio era un senor de apellido Teixeira. Se que la informacion que tengo es minima, pero tal vez hayan algunas personas en Madeira con familiares en Venezuela que pudieran ayudarme.
Obrigdo.
Pedro A. Blanco
Washington, DC
USA

Afixado por: Pedro A. Blanco em maio 10, 2004 06:48 PM