O meu "low profile" artístico, permite-me entrar no campo da crítica, sem ter alguma "andorinha" a sussurrar-me ao ouvido, "que poderão interpretar mal as tuas palavras", atribuindo-as à célebre invejinha do português. Felizmente, não sofro dessa doença nacional, talvez porque a minha juventude ,foi em grande parte vivida noutras paragens...Não saberei destrinçar o porquê. Hoje, retomo algum prazer que tive ,quando escrevia para um jornal, na secção de Musica e Arte. Vem a propósito,a necessidade que há duma vez por todas,de distinguir na musica, os verdadeiros criadores e os oportunistas copistas, que não só estragam,a obra de arte primeira, como influenciam negativamente os neo-apreciadores dum qualquer género musical. Assiste-se actualmente,a um desavergonhado aproveitamento do reportório de Amália Rodrigues,como se não existissem nas prateleiras das discotecas, os originais amalianos. É evidente que a duplicata de um qualquer tema artístico,pode ser válido,desde que apresente, ou acrescente algo do "novo" sentir do artista que o reproduz, porém, quando a utilização visa unicamente o comércio, sem quaisquer abordagens dignas duma particularização identificativa do sentimento do autor,então estamos perante o abortar de qualquer caminho criativo, que é,como sabem, a mola que move o homem para uma evolução digna e condigna. Vem toda esta verborreia,a propósito de dois lançamentos discográficos, que são,sem sombra de dúvida, paradigmas daquilo que se consideram, verdadeiras criações artísticas, baseadas numa aprendizagem técnica e emocional ,do que o nosso espírito aculturou,mas sem manchar a obra já feita ,levada ao extremo da perfeição. Falo de Dulce Pontes,e do seu "Focus" com musica de Ennio Morricone,onde a cantora,sem deixar de ser portuguesa na sua essência,lança outros voos à interpretação, que não é mais do que o somatório das suas influencias,mais a caracteristica "genética" do seu proprio sentir enquanto artista. Aliás,vemos em odiernas interpretações de clássicos de José Afonso e de Amália,o desejo implícito de homenageá-los ,e de não usar-los para seu benefício imediato. A coragem de gravar um autêntico hino, que é o "Povo que lavas no rio", só poderia ter consistência artística, como o fez Dulce Pontes, ou mesmo como o fez, quinze anos antes, o criativo António Variações. Os restantes "Povos que lavas no rio", que inundam o reportório das fadistas e cançonetistas, não são mais do que meros aproveitamentos duma melodia e dum poema, que por si só, grangeam admiração.É a chamada, prostituição da Arte. Ela existe em todos os sectores da vida. Outro caso de responsabilidade artística e de criatividade, é o de Mísia, célebre fadista, que já tive o prazer de ver em Paris, perante uma plateia maioritáriamente francófona, interessada,e exigente em termos artísticos. Mísia, também repegou no passado ,fados tradicionais e acrescentou-lhes a mais-valia das palavras de Saramago ou de Agustina Bessa Luís. Não optou, e bem, pela fácil reprodução dos celebérrimos temas literários musicados por Alain Oulman, expressamente para a voz de Amália. Como intérprete,não negarei que eu própria ,os utilizo nos meus espectáculos, dando-lhes o meu cunho pessoal,evidentemente fugindo da fórmula interpretativa amaliana,pois se o contrário o fizesse, correria o risco de dar umas quantas cambalhotas.Dizia, António Vitorino de Almeida,na contracapa de um disco de Amália-"o homem que imita as ondas, dá cambalhotas". E que cambalhotas tenho eu visto por aí... Regressando à Mísia, dizia eu, que toda a produção discográfica deverá ser encarada como um instrumento cultural, que abrange diversos itens da civilização:a musica, a poesia, o retrato antropo-musicológico de um povo,e não raras vezes, motivações sociais e políticas, usos ,costumes. Não é por acaso ,que em muitos países, existe no ensino secundário uma cadeira de "Music Appreciation", que não é mais do que a" bengala "que ajudará o "futuro" publico ,a não se deixar embalar por musiquinhas que chamam pelo António,e doutras que dão uns quantos "pimbas "à menina desejosa de ser "pimbalhada"...Mísia, com o seu novíssimo "Canto", dá-nos uma lição de criatividade e de respeito, pelos grandes valores artísticos-Trata-se de treze musicas de Carlos Paredes, adaptadas ao canto,e soberbamente acompanhadas por um quinteto de camera francês,e pela "indispensável" guitarra portugesa.Ora cá está um disco, que é realmente um objecto cultural,e ao mesmo tempo uma delícia para os sentidos. Ouvir estes dois albuns destas duas cantoras portuguesas de excepção, transmite-nos aquela centelha de prazer, que ainda sinto perante a "novidade" das interpretações de Amália, em albuns de culto, como : "Encontro C/ Don Byas", "Com que voz", " A una terra che amo", "Fado Português","Amália canta Portugal" e "Amália na Broadway", onde, lá por cantar em inglês, a diva do Fado,não deixa de ser fadista, como o acentua ainda mais, sem "estragar" as musicas de Cole Porter ou de Gershwin, trazendo-lhes, isso sim o "apport" da verdadeira criatividade. É isso que Dulce Pontes e Mísia, fizeram nestes seus novos trabalhos. O artista é um criador, não um computador que reunifica dados,e os desbobina maquinalmente. Tenho dito!
Publicado por Valéria Mendez em outubro 18, 2003 05:46 AMObviamente, concordo com as apreciações que faz à Dulce Pontes e à Mísia (inegavelmente duas grandes figuras da música). Diferentemente, se quiser a outro nível e com outra "abordagem" da criatividade, permita-me apreciar as outras "figuras" que referi nos meus textos, nomeadamente a Mariza e a Cristina Branco... mas também aqui se fala na Mísia e na Maria Ana Bobone, por exemplo.
Afixado por: Leonel Vicente em outubro 18, 2003 10:22 AMPrezada Valeria- Das figuras que vc fala só conheço a Amália e a Dulce Pontes, que vi na televisão cantando uma canção que salvo erro se chamava Balada do mar. A Amália Rodrigues para mim continua a ser uma deusa maravilhosa, que admiro muito. Ouço sempre religiosamente os quatro discos que tenho dela, que epnso que vc conhece-Amália ao vivo no Canecão, Amália ao vivo no Japão, Com que voz e Vou dar de beber à dor. Estes dois ultimos comprei em Lisboa durante a Expo 98, que tive o prazer de visitar. Aqui no Brasil só vi Amália uma vez, em S. Paulo,no final dos anos oitenta,e devo lhe dizer que foi um barato mesmo, um sucessão! Parabens pelas crónicas de sua página.Adorei aquela do Iemen e uma outra com o titulo de Cocaina, que achei muito engraçada.
Afixado por: Lucia em outubro 18, 2003 03:35 PMOlá, Valéria. É preciso acima de tudo um sentimento muito especial quanto à artista Amália, embora eu tenha entendido que falavas, no fundo, de todos os artistas "copiados". Ah, Valéria, como eu te compreendo!
Mas reparas que os que fazem um bom trabalho que subsistem no mercado por anos e anos. Os "outros" são levados pelo vento.
Valeria, podia assinar de cruz por baixo do que escreveu. Ainda bem que ainda há pessoas que vêem as coisas desta maneira.
Afixado por: castafiore em abril 19, 2004 11:05 PM