outubro 14, 2003

Na varanda do nosso quarto...

Depois do jantar,regado com um vinho tinto de eleição,eu e o meu companheiro, refugiamo-nos no quarto. A noite estava clara. O mar espelhava a luz da lua. Havia silêncio,e aquele mar lindo do Porto Santo. Apeteceu-nos, sentarmo-nos à varanda,falando de tudo e de nada, quando porventura pela mágica de Iemanjá, aquele mar imenso,mesmo ali defronte, lembrou-me os versos de José Régio-" O Fado,nasceu um dia/ quando o vento mal bolia/e o céu e o mar prolongavam/ na amurada dum veleiro/ no peito dum marinheiro/ que estando triste,cantava..." Debrucei-me sobre o balcão, qual "amurada de um veleiro",e discretamente cantei o poema de Régio,com musica de Alain Oulman. O meu companheiro,olhava o mar,para além do horizonte,e o fumo do seu cigarro desenhava formas indecifráveis no ar, que pareciam acompanhar o queixume da minha voz. Era um momento só nosso. Muito especial. Muito intimo. Ao terminar a canção, da varanda ao lado da nossa,e duma varanda de um piso superior, soaram palmas. Uma voz gritava alto -"bravo!",com sotaque estrangeiro. Rimos. Gritei um envergonhado "thank you",e recolhi ao quarto quase intimidada. Já no leito, o meu amigo-amante, disse-me quase ao ouvido:" Sabes uma coisa? Se a Amália te ouviu, não se zangou concerteza!" Sorri,pensando:" A Amália,decerto que não,agora o José Régio,já não tenho tanta certeza. Quem possui um Rembrandt, pr`a que quererá uma cópia tosca dum desconhecido?"

Publicado por Valéria Mendez em outubro 14, 2003 01:01 PM
Comentários

Enganas-te! A sensação da visão da arte é simultânea e tão poderosa na duplicata como no original. É preconceito humano tornar o original como o único veículo do sentimento.
Além disso a cada interpretação, a riqueza da peça torna-se mais consolidada.

Afixado por: Rui em outubro 15, 2003 10:01 AM