outubro 10, 2003

Essa "gostosa" solidão...

Como talvez se terão apercebido,quiz o destino me condenar à incapacidade de ser mãe. As deficiências genitais com que nasci,impediram-me à partida, de passar pelo mais belo momento duma mulher-o de dar à luz ,uma nova vida. Tivera eu nascido nas décadas de oitenta ou noventa, teria tido a ventura de ser submetida à correcção cirurgica do meu hermafroditismo,e segundo os médicos, teria mais de 70% de chances,de vir a ser mãe.Desafortunadamente, nasci mesmo logo no início dos anos sessenta. A medicina não se encontrava ainda preparada para tal feito. Há cerca de dois anos,o meu médico,em consulta de rotina, confessou-me que havia acabado de efectuar uma cirurgia, idêntica àquela que efectuei há onze anos,num bébé. Os pais ,haviam sido avisados do problema, retardaram o registo do sexo e da identidade,e depois de estudado o caso e realizada a operação,é que puderam dar um nome,neste caso à menina, que tinha vindo a este mundo. Fiquei feliz,por saber que, desta vez, alguém não seria condenado a uma adolescência e juventude cheia de mágoa e de solidão. A descoberta da volupia e do romance, comigo deu-se tardiamente.Só depois da cirurgia,e largo tempo passado,é que quiz ser igual aos outros: Ter uma vida,na medida do possivel,o mais parecida com a normalidade. A maternidade é a minha maior frustração. E logo eu, que adoro crianças, fico logo tão babada com um bébé ao colo, que custa-me tanto separar-me dele, entregá-lo à sua mãe. Devo estar a pagar algum karma, de certeza. Dadas estas premissas, nunca consegui, por muito que tentasse, juntar os trapinhos com algum príncipe encantado,e viver a aventura da vida a dois. As minhas primeiras relações sentimentais falharam por isso mesmo. Há cerca de cinco anos, quiz Deus ou a Fortuna, que entrasse no meu caminho alguém que estava na mesma sintonia que eu. Esse homem já tinha casado, havia-se divorciado, já possuia um filho,e tal como eu, prezava muito essa "solidão gostosa", que é saber que se tem alguém com quem partilhar os nossos afectos e emoções, sem abdicar da total privacidade, do escutar a musica de que se gosta,noite dentro,sem incomodar ninguém e de ser dono dos nossos passos. É então, que o encontro, o jantar, as três ou quatro noites por semana que passamos juntos, ora na casa de um, ora na casa do outro, transforma a nossa vida, numa aventura e num partilhar de emoções, que nunca se atenua, ou se torna naquela rotina, que mata muitas relações,nos dias de hoje. Odeio a solidão, os meus olhos ficam ceguinhos de choro, quando a constato, num banco de um qualquer jardim. Mas, adoro, essa "gostosa solidão", que me traz a possibilidade de dialogar comigo mesma ,com os meus livros, os meus discos... Encontrámos,nós os dois, a fórmula perfeita. Um dia, quiçá, se o destino quizer,e a nossa idade "apertar", então sim, talvez partilhemos, dia a dia, noite após noite, o nosso respirar. Por enquanto, sou feliz assim. Estou tão excitada, que nem uma jovem de 20 anos.É que amanhã, nós os dois, decidimos ir ao Porto Santo, só para jantar e passarmos lá a noite. Num hotel, ali mesmo junto à praia dourada. Como dois pombinhos...

Publicado por Valéria Mendez em outubro 10, 2003 02:46 AM
Comentários

Uma das coisas curiosas de ter um blog é a empatia que se vai ganhando com outros blogs/pessoas. E é curioso encontrar gostos e interesses comuns. Eu estou casado com uma madeirense,adoro a Madeira e não há 1 único ano que não vá ao Porto Santo. Casei lá na capela do Espirito Santo (a que tem 2 palmeiras na entrada)e considero a ilha um dos meus refugios,juntamente com a serra da Estrela.
Mudando de assunto é falando deste texto "Essa "Gostosa" solidão" digo o seguinte é terrível viver uma adolescência assim e saber que não se pode ter filhos mas temos a abrigação de seguir em frente e tirar partido dos bons momentos que passamos.
Um grande amigo meu Espanhol (por acaso músico) faleceu em Fevereiro deste ano é o melhor exemplo do que eu quero dizer. Foi sempre tão positivo que quando já estava internado no hospital com dores imensas dizia que era um afortunado por que tinha uma família que adorava e que o acompanhava naquele momento difícil, enquanto no mesmo hospital havia muitas pessoas a passar pelo mesmo problema sozinhas. Este senhor é para mim um exemplo e uma referência a seguir.

Vivemos rodeados de coisas más temos que encontrar refúgio em pequenas coisas boas e torna-las especiais.

Afixado por: Amnésia em outubro 10, 2003 10:54 AM

Concordo com o amnésia. Mas não faz mal nenhum desabafar as frustrações de vez em quando

Afixado por: pensoeudeque em outubro 10, 2003 06:12 PM

Acho que encontraste o melhor caminho. O facto de veres as coisas pelo lado positivo. Porque sem dúvida, o lado positivo é muito mais recompensador e frutífero.
Eu sei disso.
Beijo e espero que aproveites o encontro.

Afixado por: Rui em outubro 13, 2003 04:39 PM