outubro 06, 2003

AMÁLIA RODRIGUES, e eu

A quem me tenha feito o favor, de ler as minhas crónicas,saberá como me encontrei com Amália Rodrigues,pela primeira vez. A amizade consolidou-se,tinha eu 21 anos, por via de uma das actividades profissionais que tive na minha vida-o jornalismo. Chegada à Madeira,minha terra natal, comecei logo a leccionar, na antiga Academia de Musica e Belas Artes da Madeira, que poucos anos mais tarde passou a Conservatorio de Musica,onde continuei a leccionar durante muitos anos. Paralelamente a essa actividade, exercia em part-time, a função de "colaborador" do Jornal da Madeira. E um dia, recebi do director, uma proposta irrecusável: deslocar-me a Lisboa para fazer uma entrevista de fundo, à Amália Rodrigues. Ele sabia que aos 17 anos, eu havia conhecido Amália em Itália. Seria o reencontro marcado pelo destino. A partir dessa data, fiquei presa ao fascínio e ao talento da diva. Lenbro-me que a entrevista estava marcada para as 23 horas da noite,depois do jantar. Cheguei à Rua de S. Bento, por volta das 22,30. Fui recebida pela Estrela e pela Lili, que atenciosamente mandaram-me subir. Amália iria receber-me dentro de minutos. O meu coração, batia a passo descompassado, Observava aquele ambiente do salão de Amália, pejado de quadros de pintores célebres,a um canto o seu busto, um piano de cauda, uma guitarra portuguesa encostada a uma parede, muitos papeis e livros sobre o piano. Absorta nesta observação, senti alguém atrás de mim. Era Amália, fulgurante no seu vestido aciganado, cabelos soltos, quase sem maquilhagem , sorrindo para mim."Ah boa noite.Então é você que vem do Funchal para falar comigo ? Eu lembro-me de si em Perugia. Tenho recebido as suas cartas,e tenho-as lido com muito prazer." Só consegui balbuciar um obrigado. Nesta altura os meus olhos traiam a minha emoção. Finalmente eu estava ali, em casa de Amália ! A entrevista decorreu lindamente. Falamos da sua carreira. dos prémios que tinha recebido até então, das vendas fabulosas dos seus discos, do album "Vou dar de beber à dor" e do "Com que voz", que lhe valeram grandes distinções internacionais, como o "Grand Prix du Disque", o "Premio da Crítica Discográfica Italiana", o ´"Prémio da Académie des Arts et des Lettres de Paris", as tournées, do Japão à América do Sul,passando pelas digressões invulgares para uma artista ocidental,a países como o Líbano, a Tunísia, a Turquia,e à distinção máxima que um governo árabe deu,alguma vez, a uma artista estrangeira-a Condecoração com a "Ordem dos Cedros do Libano". Falámos também dos afectos,da amizade, das apetências de Amália em termos de Literatura,de Filosofia, de Musica. Fiquei sabendo que Amália gostava de Mahler, considerava-se uma "niilista",e os seus problemas existenciais continuavam presentes como num jovem como eu. Falámos dos seus projectos,dos seus próximos concertos, do 25 de Abril, que a tinha deixado desencantada com alguma "intelligentsia" do país,que a tinham acusado de coisas ridiculas,como o de pertencer à PIDE e o de ser a "cantora do regime",quando na verdade, no seu grupo de amigos e colaboradores, encontravam-se resistentes como Ary dos Santos, Alain Oulman ou Manuel Alegre. Tinha até inclusivé, feito pressão junto de Salazar, para libertar Alain Oulman que havia sido detido pela Policia Politica portuguesa, acusado de" escrever e propandandear ideias subversivas, como o socialismo."À altura do 25 de Abril, Amália era artista presente em palcos de países como a Roménia e a União Soviética, aplaudida na Jugoslávia, e de repente, tornava-se numa "agente do fascismo". Águas passadas, que segundo Amália, foram responsáveis por uma grande depressão, que a levou ao hospital,mas que felizmente meses depois se aplacou,com o célebre concerto de Amália no Coliseu ,em que segundo ela, poude ver que os portugueses continuavam a gostar dela e a admirá-la.Foi uma grande entrevista.Nunca mais faria outra, tão completa e tão sentida ! Havia começado nessa noite ,uma amizade pura e sincera , uma espécie de identificação com as coisas que Amália me dizia,e uma receptividade em relação à minha pessoa por parte dela, que só terminou no dia 6 de Outubro de 1999. Passei toda a noite na Basílica da Estrela,velando o seu vorpo,e rezando por ela. Tratava-se da morte de uma amiga, confidente, mãe, irmã, ídolo, referência... Nunca pus os pés num consultório de um psiquiatra, porque Ela foi a "Minha Psiquiatra". E Deus sabe, que eu precisei tantas vezes, das suas palavras,dos seus poemas,da sua musica, para dar um sentido à minha vida. Nessa altura, ainda não havia feito a operação de correcção genital, que fez de mim uma mulher completa. Nessa altura, eu era um ser sem identidade, ou melhor, tinha uma identidade que não correspondia ao meu corpo. Tramas do destino, Karma, negligência médica, falta de conhecimentos ciêntificos, seja lá o que fôr. Recusava-me a fazer uma operação, e continuar a ter um bilhete de identidade que não correspondia ao meu sexo. Amália esteve sempre presente, face a face, por telefone, por carta, dando-me sempre uma palavra. E que palavra ! Se hoje, estou viva, devo-o à Amália Rodrigues E realmente,as palavras de esperança, vindas de uma cantora de fado, supostamente pessimista e trágico, tornaram-se realidade. Ela dizia-me sempre-"Vai ver que os nossos legisladores ainda vão se debruçar sobre o seu caso, que é raro,e por isso mesmo merece uma atenção especial ". E efectivamente, dez anos depois, foi-me autorizada a mudança do B.I. . A cirurgia,essa ,foi simples. Sem dores nem problemas pós-operatórios, graças a Deus, mas também graças à força da minha psiquiatra- AMÁLIA RODRIGUES. Faz hoje 4 anos que partiste, amiga,mãe,irmã ! Todos os dias és parte integrante da minha vida. Todos os dias me alimentas, dás-me força, alento, e prazer. Com as tuas recordações,os teus discos, os teus videos, as gravações "piratas" que te fiz, em alguns dos teus espectáculos,e que só eu ,sou unica espectadora. Ainda agora, revi uma gravação que fiz dum recital teu, na Holanda em 1985. Lembras-te ? Foi um sucesso arrebatador ! Lembras-te daqueles jovens que foram oferecer-te flores ao palco ? Lembras-te do engarrafamento que provocaste, aquando da tua saída do teatro ? Sabes uma coisa Amália? Eu já sei quem tu és !

Publicado por Valéria Mendez em outubro 6, 2003 03:22 AM
Comentários

Respondo-lhe neste espaço de comentário que foi a única via que encontrei para lhe agradecer o seu comentário. É bom saber que nos lêem, saber que fizemos a ponte com os outros. E se o poema de facto for bom podemos ambos (eu e você)estar de parabéns porque um poema tem sempre dois lados, um poeta que o escreve e outro que o sente!
obrigado!

Constantino Alves

Afixado por: Constantino Alves em outubro 7, 2003 12:50 PM

Respondo-lhe neste espaço de comentário que foi a única via que encontrei para lhe agradecer o seu comentário. É bom saber que nos lêem, saber que fizemos a ponte com os outros. E se o poema de facto for bom podemos ambos (eu e você)estar de parabéns porque um poema tem sempre dois lados, um poeta que o escreve e outro que o sente!
obrigado!

Constantino Alves

Afixado por: Constantino Alves em outubro 7, 2003 12:50 PM

Vou ser pouco simpático mas sincero:

Só de olhar para o comprimento do post até assusta, parece a biblia! Acho que estes posts são demasiado longos para o formato pretendido pela maioria dos leitores...penso eu de que.

Afixado por: pensoeudeque em outubro 8, 2003 07:16 PM

Adorei!!!! Valéria a sua crônica, belíissima, Amália deveria ser uma grande amiga, pena que não a conheci, não me perdõo por isso, rive 3 oportunidades de conhecê-la e desperdicei, lamento até hoje, sou sempre fã dela e serei a minha grande rainha do fado. Parabéns pela crônica, vocÊ é genial!!!! gostaria de conhecê-la melhor, ok? abraços. Maria Felicidade.

Afixado por: Maria Felicidade Batista em novembro 2, 2003 10:08 PM

Eu conheci Amalia de minha juventude em Curaçao. É ainda uma artista grande e é graças a você ela é ainda.

Quando é que você vem a Holanda? Ou melhor ... nos pensamos ir este ano a Madeira! Nós gostaríamos de encontrar-se com vc. Nós também gostaríamos ter contacto pelo e-mail com você ... se não for nenhum problema.

Um abraço

Afixado por: Amaro em janeiro 19, 2004 08:53 AM