Dizia-me há dias,num comentário,a amiga Xinha ,que a vontade de matar e de fazer sofrer, depende das circunstâncias. "Sou contra a pena de morte, mas se alguem matar o meu filho, eu mato-o." Nesta simples frase jaz todo o complexo fenómeno do terrorismo no Médio Oriente. Na minha recente deslocação a Israel e à Palestina, tive ocasião de visitar uma família de palestinianos, cujo filho de 14 anos, havia sido preso durante uma rusga, nos arredores de Jerusalem. Ficou detido uma semana. Nesses intermináveis dias, o Ahmed foi confrontado com um interrogatório bastante denso,por parte de militares israelitas, que queriam por força, que o adolescente lhes revelasse os nomes dum certo grupo de rapazes ,que revivendo diáriamente a intifada, haviam incendiado um carro dum colono judeu. Ahmed, na sua bravura, nada adiantou. O colono em questão, havia uma vez dado um tiro de caçadeira a um dos seus primos, uma criança de 8 anos, só porque tinha entrado no quintal do judeu, para resgatar uma bola que, inadvertidamente ,ali tinha entrado. Essa criança, teve mesmo de ser operada, devido a essa agressão. O colono não sofreu consequências de espécie alguma. Para cúmulo da situação, o tal colono ocupava agora, uma pequena parcela de terreno confiscada aos pais do miudo.Ahmed sabia de tudo isso. Disse-me também que sabia que não era correcto incendiarem-se os carros. Mas também me disse que, o seu pai estava morto, resultado dum ataque dum helicoptero israelita, quando se encontrava a trabalhar em Ramallah. O que era um carro, frente a uma vida ? E foi então que a mãe do Ahmed lhe pediu para tirar a t-shirt que trazia vestida. O que os meus olhos viram jamais esquecerão: as costas do rapaz estavam literalmente esfaceladas, haviam ruas profundas na sua pele, rasgos de queimaduras, as suas costas pareciam uma parede feita de tijolo, plena de sulcos impensáveis. O Ahmed nem pestanejou, ao ver a minha expressão de horror e indignação. Apenas disse: " Eles fizeram-me isto com um ferro quente. Queriam os nomes, mas nunca abri a boca. Nem que me matassem ! " Creio que nem preciso me alongar mais em análises pouco profícuas. Perspassa-me contudo um pensamento - Que tipo de juventude está criando Israel,para fazer com que um soldado de 20 e poucos anos se predisponha a tais barbaridades ? Aonde é que estão os terroristas ? Será que estão só do lado de fora da barricada ? Mais uma vez, tenho de compreender a cruel alegria das caras de muitos muçulmanos, ao verem Nova Iorque chorar as suas vítimas. Dizia-me a mãe de Ahmed- " Eles agora que sintam na pele, o meu sofrimento ! " Pois é. Quem poderá contra-argumentar ?
Publicado por Valéria Mendez em setembro 22, 2003 02:15 AMAdorei o seu texto.A sua vida paece ser muito interessante.vou sempre seguir com atenção os seus posts
Afixado por: Nélia em outubro 9, 2003 04:45 PM