setembro 19, 2003

" LA BRUJA MAYOR " 1

MONTAÑA DE SORTE ( ciudad BARQUISIMETO, Venezuela ) "Kongo,Konguito,kongo de verdad,venid a la tierra hacer caridad..." Chegaramos de jipe,depois de mais de oito horas de viagem ,desde Caracas. Havia, dois dias antes, actuado no Centro Português da capital Venezuelana, e uns amigos luso-venezuelanos haviam-me prometido esta viagem, depois duma interessante conversa sobre antropologia cultural e as tradições espiritualistas latino-americanas, assunto que me apaixonava desde há vários anos. Já houvera estado em Barquisimeto,cidade do interior da Venezuela,muito plana,sem grandes arranha-céus, de clima muito quente, equatorial,porém pouco humido,contráriamente à maioria das cidades daquele país,onde a humidade parece que nos entranha na pele,fazendo dos banhos frios, um prazer indescrítivel. A viagem de carro, desde Caracas ,tinha sido apaixonante e algo perigosa, dando-nos um perfeito portrait fiel da verdadeira Venezuela.Imaginem um carro com vinte anos, onde cada arranhadela, cada mossa na chaparia, parecem reliquias guardadas com esmero. Foram carros assim que encontramos nas "autopistas", muitos parados na berma, de capot aberto com um homem debruçado no motor, qual mãe, atenciosamente cuidando dos achaques de seu filho doente.Os semáforos,existem; contudo parece que lá estão como elemento decorativo,pois ninguem repara neles,e para avançar, só basta a atenção dos condutores,que rápidamente decidem abrandar ou seguir em frente,estando vermelho ou não, esses " postes decorativos ".Para aceder à Montaña de Sorte, haviamos atravessado Barquisimeto duma ponta a outra, onde podiamos observar ainda as construções da ocupação espanhola do século XIX, com as suas grandes casas quadradas,abertas ao meio,deixando em espaço aberto os seus pátios, com jardins e a tradicional fonte no meio deles, abastecedora do precioso liquido cristalino. Entraramos num autentico labirinto ascendente, de terra batida, dentro duma luxuriante vegetação, dum verde escuro deslumbrante.À medida que subiamos a encosta, a temperatura tornava-se mais amena,e nesta altura já haviamos desligado o ar condicionado do jipe e abriramos as janelas,para inspirar aquele ar revigorador e refrescante. Ao chegarmos a um planalto,várias cabanas de colmo e de madeira surgiram ante os nossos olhos, e algumas pessoas sentadas à volta de pequenos altares,construídos em pedra, de onde sobressaiam velas acesas,copos com bebidas dentro, frutas e pratos com comidas variadas, fumando charutos ao som de batuques " santeros ", para chamar os espíritos. O local tinha uma magia especial. Todos vinham " fazer trabalhos de santeria ". Na cabana maior, uma estatueta de " Maria Lionza ",uma india que, segundo a lenda, viveu no século XVI, e possuia dons extraordinários. Maria Lionza é uma autentica instituição religiosa na Venezuela. Não é raro vermos, mesmo em pleno centro da cidade de Caracas, pessoas depositando flores e fumando charutos junto às duas principais estátuas da india, mandadas erigir pelo governo venezuelano. Maria Lionza é apresentada, cavalgando nua sobre uma onça,e são vários milhares ,os relatos de "visões " das aparições milagrosas daquele icone pagão,em terras de Simon Bolivar. Segundo a "santeria", Maria Lionza viveu numa tribo,ladeada pelo vigoroso cacique Guaicaipuro,indio guerreiro,e pelo feiticeiro Negro Felipe que conhecia as artes esotéricas como ninguem.Para compreendermos a importancia deste trio na sociedade venezuelana do século XX, refiro só como exemplo o facto de ,em plena Caracas haver ruas,avenidas, mercados que ostentam os seus nomes. O mercado Guaicaipuro é deles um exemplo, onde podemos todos os dias ver alguns dos nossos emigrantes, venderem as suas frutas, legumes, carnes e flores. Junto ao altar exterior da cabana maior,uma velha india chamou-me à atenção,pela sua cara marcada pelas rugas impressionantes,e ao mesmo tempo pela agilidade com que bailava , à volta das velas, fumando seu charuto e bebendo "caña",uma aguadente de cana de açucar. De vez em quando parava junto a uma pessoa,e falava-lhe,dando conselhos e apontando "soluções " para os seus problemas. Acercamo-nos e sentamo-nos no chão. Alguem me sussurrou ao ouvido, ela é a " bruja mayor " e tem mais de 90 anos.Depois de muitas orações, cânticos e charutos consumidos,inicia-se o ritual da incorporação. A velha senta-se no chão,os olhos quase soltam-se de suas orbitas,e já possuida por algo que não consigo explicar face à minha formação cultural europeia,começa a proferir palavras imperceptíveis. Alguem diz, " é o Negro Felipe.Hoje é o Negro que nos vem visitar ! " Todos os presentes, fumando seus charutos, o saudam : " Bienvenido Negro. Aqui estamos fumando nuestros puros en tu honor ! " A velha india, transfigurada,e com voz masculina,cavernosa e lenta,responde."Ustedes han pedido caridad.Aqui estoy ! ",sentando-se no chão,junto ao altar.A maioria das pessoas levantaram-se,puseram-se em fila,e durante cerca de quase quatro horas,o Negro incorporado na velha senhora, atendeu todo o tipo de gente, cada qual com seu problema,o tratamento médico que não estava a resultar,o marido que a tinha trocado por uma " chica" mais jovem, os negócios que corriam mal e até um noto ex-ministro,que a maioria das pessoas reconheceu,lá estava ,sabe Deus porque razão. A nossa presença ali não se prendia com algum problema palpável. Tinhamos curiosidade. No entanto, e talvez levado pela atmosfera algo invulgar, um dos meus musicos,levantou-se e aproximou-se da india,já lá para o final. Tácitamente, juntamo-nos a ele na " consulta ". Sem que alguem tivesse proferido uma palavra, a velha india,com voz masculina de venerando velho,olhou fixamente o guitarrista e disse: "Hijo mio. Yo sé que tu sufres por tu muchacho. Mira ! Yo te voy ayudar. Te voy a enseñar algo y solo tu tienes que hacerlo sin decir a nadié,y vas a ver, tu hijo dejará la heroina. Por favor,hermanos,yo quiero hablar solito con vuestro amigo! "Nesta altura os olhos do meu amigo musico estavam marejados de lágrimas. Ficaramos petríficados ! Como autómatos,desviamo-nos do altar, e deixamo-los em conferência imperceptível durante cerca de quinze minutos.Nem eu ,nem o outro guitarrista que nos acompanhava, sabiamos desse problema. O Manuel (nome ficticio,por razões óbvias) era um homem calado,muito simpático e atencioso, mas muito reservado.Nunca nos falara de si ou da sua família,e nós respeitavamo-lo. Já tinha estado em muitos sítios com ele,em Lisboa,no Coliseu e no Teatro Maria Matos, em Setubal no Luisa Todi,em diversas unidades hoteleiras na Madeira,e em quase todas as digressões à Venezuela e França,sempre que os nossos empregadores artísticos disponibilizassem meios para um acompanhamento ao vivo,sem aquela treta dos playbacks instrumentais que retiram muito à essencia duma boa performance. Quinze minutos depois, o Manuel aproximou-se de nós,ainda de olhos vidrados,e só foi capaz de balbuciar-nos duas palavras : "É verdade." Durante toda a viagem de regresso, não pronunciamos uma palavra sequer sobre o sucedido. Ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse. A minha cabeça deambulava, procurava encontrar uma explicação racional para tudo isto. Como é que alguem do interior duma Venezuela tribal e ancestral sabia que o meu guitarrista tinha um filho heroinómano ? Tudo isto desafiava qualquer lógica ou premissa cientifica. Regressamos a Caracas, calados, pensativos e atónitos...

Publicado por Valéria Mendez em setembro 19, 2003 09:34 PM
Comentários

É bom que pessoas com uma vida tao rica, se dêem ao trabalho de a partinhar com os outros. Ainda nao tive oportunidade de lêr todos os seus textos mas posso já dizer que os que li até agora sao maravilhosos. Obrigado Valéria

Afixado por: amnésia em setembro 24, 2003 05:38 PM

É verdadeiramente impressionante o culto de Maria Lionza e deixa-nos apreensivos, se não fosse a nossa cultura europeia era com facilidade que nos transformariamos em fieis adeptos do seu culto. Eu nasci na Venezuela e tive a sorte de viver perto duma senhora a quem eu chamava de tia que era "seguidora" deste culto e até aos 10 anos assisti em sua casa a muitos rituais porque ela tinha lá o seu altar, com as suas imagens, as suas velas, os calices com a fruta e os pires com a fruta. Vi pessoas serem possuidas pelos espiritos de Negro Felipe,de Maria Lionza y de otros que já não me lembro, acompanhei as pessoas que fumavam os seus charutos para pedir autorização para poderem ir até à Montanha. Vim para Portugal e passados uns anos voltei à Venezuela em turismo e fui visitar a minha tia que com muita idade continuava com o seu altar y com idas a Montanha e pediu-me que quando voltasse lhe levasse uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, o que eu fiz passados mais uns anos e ela pos a imagem junto com as outra imagens que ela tinha no seu altar.Hoje passados estes anos todos tenho pena de nunca ter tido autorização dos meus pais para ir com ela até à Montanha apesar da sua insistência e sinto sempre aquela curiosidade do que poderia ter acontecido. Penso que ir agora é um bom desafio mas sem a minha tia que já morreu não teria o mesmo significado porque ela pelo carinho que manifestava por mim, iria explicar-me todo este culto com grandes pormenores. Custa muito a acreditar mas não acreditar também é dificil. Cumprimentos Rui Santos.

Afixado por: RUI SANTOS em janeiro 14, 2004 11:33 AM

me llamo bruno soy de la REPUBLICA ARGENTINA y me gustaria saber sobre la divina madre MARIA DE LIONZA ya que me motivo su imagen y me dio un sentimiento de alegria por eso me gustaria,si no es mucha molestia que me manden informacion y fotos sobre esta divina santa


muy atentamente BRUNO

Afixado por: bruno em maio 8, 2004 05:58 AM