Por vezes,a vida dá-nos bizarras experiencias.Delas extraímos ensinamentos ou tombamos na mais absoluta tragédia.Tudo depende.De nós,das circunstancias,do nosso anjo da guarda,de Deus ou do Diabo,enfim,nunca saberei defenir.A verdade é que ,o caminho da vida, oferece-nos vivencias que por alguma força ou razão,potenciamos o nosso livre-arbítrio e tomamos um rumo. Encontrava-me em Caracas,Venezuela.Terminara um contracto de quinze dias num conhecido local nocturno,e tinha decidido ali ficar mais um tempo para dedicá-lo a familiares que me eram caros e que há longos anos haviam escolhido a terra de Simon Bolivar,como país de acolhimento.Inesperadamente,um agente artístico de origem lusa,encontrou-me no bar do Centro Portugês e falou-me dum Hotel em Bogotà,Colombia,que talvez fosse receptivo à presença duma fadista,dado que,sendo um cinco estrelas,tinha uma animação cultural internacional.Nunca havia estado na Colombia.Eu estava ali mesmo,em Caracas.Respondi-lhe um " porque não?" ,e entreguei-lhe um video acompanhado do meu curriculo artístico,para que os fizesse chegar ao director da unidade hoteleira colombiana.Três semanas mais tarde,tomava o avião para Bogotà. A capital da Colombia é ainda mais anárquica que Caracas,ninguem respeita os sinais de transito,os carros são ainda piores,contrastando com algumas "bombas" que nos fazem mover a cabeça.Há uma espécie de Bogotà cosmopolita e uma outra Bogotà real,onde se vê a olhos claros,traficantes e agiotas,"cambios de moneda" em banquinhos de madeira à beira da estrada,vendedores de esmeraldas,ouro,prata movendo-se por entre as arcadas dum monumento antigo,jovens num sem nada fazer asfixiante,fumando coisas inomináveis,e aqui e ali,uma seringa rasgando o braço de alguem sentado na escadaria de uma igreja,ali mesmo, ao alcance da vista de toda a gente.Existe ainda a Bogotà completamente proibida,a dos "cierros",onde ninguem pôe os pés,sob pena de sair dentro de um caixão.Esta Bogotà só a vemos ao longe... O Hotel era um edificio moderno na Bogotà dos ricos.Na porta do mesmo,dois homens armados com metralhadoras.Não eram policias,nem soldados. Eram simples seguranças contractados. Dir-se-ia que a cidade estava em guerra. O interior do Hotel era igual a tantos outros. Era um cinco estrelas com comodidades dum quatro estrelas português. O quarto era amplo,e tinha ar condicionado.Graças a Deus! Nessa mesma noite, daria o primeiro dos quatro concertos agendados.Tomei um banho e fui "ensaiar" o som,coisa que qualquer artista que se preze,deverá sempre fazer,evitando assim confrangedoras situações no decorrer do " Live". Entreguei ao técnico, neste caso um DJ ,os CDs com o alinhamento dos playbacks instrumentais já defenidos.Iniciaria com "Coimbra",seguindo-se "Estranha forma de vida", duas canções em inglês,outras duas em castelhano,e a finalizar mais quatro fados com acompanhamento à orquestra,préviamento gravados em Portugal. O mal destas digressões é ,dizem,a falta de dinheiro para o acompanhamento ao vivo,que no caso do Fado,retira ao artista grande parte da magia do espectaculo. Aqui ,eu tinha de dar tudo. A musica era ouvida,porém não "vista". Fazia toda a diferença! Este seria pois um concerto sem musicos, de musica ligeira e não um recital de Fado,pomposamente anunciado no atrio do hotel: " Quatro noches de FADO-El folk de Portugal." Haveria sim cheirinhos de fado,em trechos como Lágrima e Solidão(Canção do Mar),onde se ouviria uma linha melodica de guitarra portuguesa,nos arranjos de estudio dos meus playbacks instrumentais. Depois do jantar, às 23 h em ponto ,entro em cena aberta,numa sala onde estão umas quatrocentas pessoas,todas exuberantes e algo pirosas,nos seus brilhos " de lamé " exagerados. Ninguem me apresentou. Apareci no palco ao som do Fado Coimbra(Abril em Portugal),provocando alguns( poucos) aplausos. À medida que o espectaculo foi avançando, ainda consegui uma interessante participação do publico, trauteando alguns refrões,e batendo palmas nas melodias mais ritmadas.No final,os aplausos foram mais calorosos. Parece que gostaram.Graças a Deus ! O director do hotel,pedui-me no final,que se fosse de minha vontade,teria todo o prazer de me apresentar a algumas pessoas da assistência. E lá fui eu,sorrindo e cumprimentando o tal senhor dono da empresa X,o senhor apresentador da Televisão muito famoso,a ex.Miss Colombia Y, o Embaixador não-sei-quantos de Puerto Rico, o filho do fazendeiro fulano-de-tal ; enfim,uma data de gente que tinham tanto de pirosos,quanto de novos-ricos.Alguns nem sabiam onde ficava Portugal,a ex-Miss acreditava que a terra de Camões ficava no sul do Brasil (!!!) e havia um outro que acreditava que Portugal fosse uma provincia de Espanha( se calhar até é,observando melhor as prateleiras das superfícies comerciais portuguesas!!!) . Passei parte da noite a tentar ser agradável e a falar um pouco do meu país.Pelo menos a minha presença ali havia de ter servido para saberem que Portugal é um país independente,europeu,e com uma história de oitocentos anos cheia de riqueza e de aventura.Falei-lhes de Vasco da Gama,de Colombo,de Pedro Alvares Cabral e quase uma hora depois,apercebi-me de que a finalidade principal da minha presença tinha sido mais pedagógica que artística! Se nove ou dez pessoas aprenderam algo comigo,já me dava por satisfeita!
Publicado por Valéria Mendez em setembro 12, 2003 01:24 AM