setembro 09, 2003

Saudades do Olympia de Paris,em Portugal

Muitos foram os recitais de Amália Rodrigues a que assisti no mais célebre Teatro de Music-Hall Europeu-o Olympia de Paris. Foi porém a temporada de Abril/85 e Setembro/87,que realmente me encheram as medidas,pela energia da artista e pelo grandioso sucesso,jamais igualado naquele palco,segundo referia o "Le Monde" nas suas páginas. Foram ao todo 14 concertos,7 por temporada,todos seguidos,sempre à mesma hora-21.30! Era um espectaculo ver o publico apinhado à porta do teatro,desde punks a senhores-bem e madames muito chiques vindas directamente dum coiffeur de alta estirpe,passando por pessoas comuns,umas bem vestidas outras nem por isso,gente de 18 ,20 ou 80 anos,todos impelidos a um concerto de Madame Amália Rodrigues. Eu deliciava-me na esplanada ao lado do Olympia, observando todo aquele movimento e aquela heterogénea gente irmanada num gosto comum:Amália. Recordo-me que ,a primeira vez assustei-me um pouco ,com um numeroso grupo de jovens de cabelo multicolor e espetado,apressando-me a entrar pela porta de serviço do teatro ( Amália havia muito gentilmente providenciado para mim um passe-partout),e lembro-me que fui logo transmitir o meu receio ao guitarrista Carlos Gonçalves,comentando que aparentemente aquela gente pouco ou nada teriam que ver com AMÁLIA,temendo ignorantemente pelo sucesso de Amália,que a meu ver estaria comprometido com aquele tipo de publico;ao que Carlos Gonçalves,por demais habituado aos milagres de Amália,limitou-se a sorrir e a proferir-me um lacónico "espere e verá!". Efectivamente eu vi,e confesso que nessa noite ,para mim o espectaculo não foi a Amália,mas sim o publico que ocupava parte da plateia,que mais parecia adequado a um concerto dos Metallica ou quando muito de Tina Turner ,que curiosamente havia sido a artista da temporada anterior.Foi uma noite memorável para mim ,ver aqueles jovens que me tinham intimidado à porta do teatro,a aplaudirem de pé a diva do fado,trauteando os hits internacionais de Amália,como Barco Negro,Coimbra ou dançando entusiaticamente um portuguesíssimo Malhão,ovacionando a rainha no final de cada canção.Anos antes, eu já havia assistido a concertos de Amália em Itália e sul de França para um publico universitário,convencional e menos "marginal".Esta era a primeira vez que via uma concentração tão grande de gente diferente,muito mais associada à chamada musica dita, " da pesada".A partir dessa noite Amália deixou de me surpreender,mesmo quando três anos depois a vi na Turquia, provocando um engarrafamento monumental pelo excesso de tráfego junto ao local da sua actuação,e fazendo milhares de turcos muçulmanos gritarem um "Allah ak bhar"(Alá é grande!),depois de uma messianica performance de Povo que lavas no rio.O que será que fez aquela gente vibrar com uma cantora que durante duas horas interpretou canções para eles estranhas,numa lingua ininteligivel? As duas unicas concessões de Amália foram duas interpretações em Francês-o Inchallah e o Ay mourir pour toi,para aqueles que porventura dominassem aquele idioma.Ainda hoje não saberei explicar o fenómeno Amália em determinados paises e tipos de publico.São assim os verdadeiros artistas universais. Não poderei olvidar um comentário que ouvi no bar do Olympia,num dos 14 concertos de Amália,a que assisti.Dizia um árabe rodeado dumas quatro ou cinco pessoas no intervalo de um dos shows:"Como Amália,só existiram neste século duas outras artistas igualmente mágicas -Oum koulthoum,a diva do mundo árabe e Edith Piaf,que para mim é a cara da França".Nesse momento só o pudor me impediu de imiscuir-me na conversa e dizer-lhe que aquela que ele tanto enaltecia era a minha melhor amiga.Mais tarde,disse a Amália o que tinha ouvido,ao que muito humildemente me retorquiu um "obrigada e um bem haja a esse senhor que não conheço!" Dias depois, reconheci esse mesmo árabe outra vez na plateia do ultimo recital de Amália,dessa temporada de Abril de 85.Lá estava ele outra vez,tal como eu,a ouvir religiosamente a nossa diva,Mais um amaliano,pensei eu aninhando-me na poltrona enquanto A VOZ entoava um denso e transbordante "Estranha forma de vida".Ai Amália,obrigada por estas recordações frementes de vida! AI AMÁLIA,EU JÁ SEI QUEM TU ÉS !!! Publicado por Valéria Mendez em setembro 9, 2003 07:17 AM | TrackBack
Comentários

é um testemunho importante para quem procura icons de identidade.

Afixado por: jpc em setembro 11, 2003 01:32 AM

Concordo plenamente com o comentário anterior.. Deve ter sido uma experiência fascinante. Por falares em Olympia, veio-me á cabeça o nome de Jeff Buckley, que também actuou lá. O espectáculo está documentado em cd, um belíssimo concerto. Conheces Jeff Buckley? É muito bom :)

Afixado por: Carlos em setembro 12, 2003 01:41 PM